Entre a história (portuguesa)e o melodrama
Ricardo Aibéo e Ana Moreira: cenas de um romanesco português

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Entre a história (portuguesa)
e o melodrama

Com "A Corte do Norte", João Botelho mostra que é possível revisitar as memórias históricas sem ceder às convenções televisivas

Infelizmente, os espaços de reflexão sobre cinema português estão muitas vezes contaminados por um velho (velhíssimo!!!) maniqueísmo: deveriam fazer-se "estes" ou "outros" filmes? Como se uma cinematografia fosse a aplicação de uma legislação linear... Como se a diversidade fosse suspeita...

Por isso mesmo, face às singularidades de "A Corte do Norte", de João Botelho, segundo o romance de Agustina Bessa-Luís, sugiro que sublinhemos dois aspectos muitos simples e, creio, também muito transparentes.

1) É possível construir um romanesco cinematográfico — entenda-se: um cruzamento das memórias históricas (de uma grande actriz portuguesa de finais do século XIX) com o apelo do melodrama — sem ceder às convenções do "realismo histórico" de raiz televisiva.

2) A utilização das câmaras digitais pode constituir um importante recurso criativo que não põe em causa a especificidade do trabalho formal — bem pelo contrário, "A Corte do Norte" é um exemplo brilhante de como é possível utilizar essas câmaras para um riquíssimo trabalho de composição e cromatismos.

Acima de tudo, mais do que nunca, creio que importa desdramatizar: um filme português, seja ele qual for, não existe para "salvar" uma cinematografia. Os filmes não podem compensar aquilo que as políticas culturais não fazem ou não decidem. Um filme é um acontecimento específico que apela ao nosso olhar e à nossa sensibilidade — no caso de "A Corte do Norte", com um contagiante misto de gravidade e ironia.





A CORTE DO NORTE
De
João Botelho
com Ana Moreira, Rogério Samora, Ricardo Aibéo
Romance
122m
M/16
PORTUGAL
2008

Ouça a crítica de João Lopes


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