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Entre comédia e drama

Kumail Nanjiani, comediante de "stand up", surge como protagonista e argumentista de um filme inspirado na sua própria vida — infelizmente, a vontade confessional nunca encontra o tom certo para emprestar alguma consistência narrativa a "Amor de Improviso".

Entre comédia e drama
Zoe Kazan e Kumail Nanjiani — uma "auto-biografia" não muito inspirada
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Kumail é um comediante, de origem paquistanesa, que tenta a sua sorte no circuito do "stand up", ao mesmo tempo que mantém a sua actividade como condutor ao serviço da Uber... Até que encontra Emily e é amor à primeira vista... Ou talvez não. O ziguezague sentimental que se estabelece surge inesperadamente abalado pela doença que atinge Emily — será que a ironia da sua relação se vai manter ou, pelo contrário, estão ambos confrontados com a possibilidade de um desenlace trágico?

"Amor de Improviso" (título nada inspirado para um filme que se chama, no original, "The Big Sick") nasceu, afinal, de uma espécie de confissão. Isto porque o actor principal, Kumail Nanjiani, não se limitou a conservar o seu nome para a personagem que interpreta. Apesar de a realização ter a assinatura de Michael Showalter, de facto Kumail está a interpretar a sua própria história, uma vez que foi ele que escreveu o argumento a partir da sua experiência de vida com Emily Gardner.


Desde muito cedo, o filme coloca na mesa o seu trunfo principal. A saber: há entre Kumail e Emily um movimento de aproximação/hesitação que não é estranho às muitas diferenças culturais que os separam, de tal modo que o seu "namoro" passa a ter ecos mais ou menos dramáticos... ou cómicos. Em boa verdade, este é um filme que se apresenta como comédia, sem nunca se decidir entre partilhar as emoções das personagens ou, de forma mais ou menos masoquista, gozar com elas.

Tudo se passa como se Kumail tivesse um material breve e sugestivo que, na melhor das hipóteses, lhe permitiria construir um consistente número de "stand up" para durar uns quatro ou cinco minutos... Cedo se torna claro que o filme pouco mais tem para oferecer do que uma antologia de variações pouco inspiradas sobre o seu ponto de partida. No papel de Emily, até mesmo a talentosa Zoe Kazan (vimo-la, por exemplo, em "O Atalho", de Kelly Reichardt, lançado em 2010) parece bloqueada numa composição que, afinal, pouco pede à sua versatilidade.

Crítica de João Lopes actualizado às 00:06 - 28 outubro '17
publicado 23:57 - 27 outubro '17

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