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Entre história e utopia

Emir Kusturica continua a ser um cineasta apostado em encenar histórias que envolvem as convulsões dos Balcãs nas últimas décadas — em "Na Via Láctea", ele partilha o protagonismo com Monica Bellucci.

Entre história e utopia
Emir Kusturica, actor e realizador — ver, rever e questionar a história recente dos Balcãs
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 Entre história e utopia
Na Via Láctea Primavera em tempos de Guerra. Todos os dias, o leiteiro atravessa a fronteira de burro, lançando balas para levar as suas preciosas mercadorias aos soldados. Abençoado pela sorte na sua missão, amado por uma bonita aldeã, um futuro tranquilo parece aguardá-lo... Até que a chegada de uma misteriosa mulher italiana vira a sua vida de pernas para o ar. Esta é uma história de paixão e amor proibido, ...

A obra cinematográfica de Emir Kusturica pode ser vista como uma incessante viagem de regresso ao mapa de um país utópico. Dito de outro modo: nascido em Sarajevo, em 1954, ele tem contado histórias e evocado tragédias que são indissociáveis do fim da Jugoslávia e do complexo processo social, político e militar que tem marcado a evolução dos Balcãs nas últimas décadas.

O seu fillme mais recente, "Na Via Láctea", é um prolongamento lógico e coerente da sua filmografia, por assim dizer cruzando o realismo das referências com a criação de uma ambiência narrativa em que o cinema se aproxima da magia e do fantástico. E não deixa de ser sintomático que o próprio Kusturica tenha decidido interpretar a personagem central.

Descobrimo-lo, assim, como uma figura frágil e pitoresca que tenta manter a sua rotina — é ele que, no seu burro, distribui leite na zona rural em que vive —, num contexto em que a violência dos conflitos é cada vez mais assustadora. Mais do que isso: o seu encontro com uma mulher italiana, interpretada por Monica Bellucci, vai reavivar a noção romântica de que o amor (talvez) possa superar a guerra...

O que torna o universo de Kusturica tão diferente e perturbante é o facto de ele se afirmar como um cineasta histórico, embora o seu gosto estético, de tão exuberante, se possa considerar operático. "Na Via Láctea" ecoa, assim, filmes como "O Pai Foi em Viagem de Negócio" (1985), "O Tempo dos Ciganos" (1988) ou "Underground" (1995) — este é um cinema que, mesmo perante a eclosão do trágico, não recusa a sensualidade do espectáculo.

Crítica de João Lopes
publicado 23:39 - 30 dezembro '16

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