Estreias  

Entre realismo e simbolismo

Sempre interessada nas clivagens dos universos familiares, Naomi Kawase filma, agora, uma história dramática centrada na adopção de uma criança — "As Verdadeiras Mães" é uma das derradeiras estreias do ano cinematográfico.

Entre realismo e simbolismo
"As Verdadeiras Mães": um drama em torno de um caso de adopção
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 Entre realismo e simbolismo
As Verdadeiras Mães A história de Satoko e do seu seu marido, Kiyokazu, que, depois de uma longa e penosa experiência com tratamentos de fertilidade, decide adoptar um bebé. Anos mais tarde, o jovem casal recebe uma chamada telefónica ameaçadora de Hikari, uma rapariga que alega ser a mãe biológica da criança que adoptaram. Hikari exige ter o filho de volta, ou dinheiro…

Cinema japonês? Eis uma referência que, infelizmente, se foi dissipando do mercado português, mesmo não esquecendo as estreias regulares de Hirokazu Kore-eda, por certo o mais internacional dos actuais realizadores do Japão, e os diversos ciclos dedicados a autores clássicos como Yasujiro Ozu ou Akira Kurosawa.

O trabalho da cineasta Naomi Kawase tem tido, ainda assim, uma divulgação regular, através das estreias de "A Quietude da Água" (2014), "Uma Pastelaria em Tóquio" (2015) e "Esplendor" (2017). Agora, chega às salas "As Verdadeiras Mães", o filme com que marcou presença no Festival de San Sebastian.

Digamos, para simplificar, que toda a obra de Kawase está limitada pela oscilação entre a evidência mais ou menos realista das situações que encena e um impulso "simbólico" (derivado de uma visão idílica dos elementos naturais) que diminui a coerência interna dos seus filmes. "As Verdadeiras Mães", uma história organizada em torno da adopção de uma criança, não é excepção, acabando por se prolongar por mais de duas horas sem que haja grande motivação dramática para que tal aconteça.

Entenda-se: os filmes não se medem pela sua metragem, seja ela "grande" ou "pequena"... Trata-se apenas de lembrar que a consistência de uma narrativa envolve decisões concretas na gestão dos factos expostos e da sua pertinência. Fica a vibração de algumas cenas, em grande parte decorrente da solidez do elenco — do Japão para o mundo, um filme que, em qualquer caso, merece ser descoberto.

Crítica de João Lopes
publicado 19:39 - 25 dezembro '20

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