Escolha global:os 10   marcantes de 2008

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Escolha global:
os 10 + marcantes de 2008

As escolhas Cinemax do ano reflectem tendências artísticas e de produção, a actualidade do ano, diversidade de géneros e espelham o gosto do público. São os filmes marcaram o ano. Pelas melhores ou piores razões.


O CAVALEIRO DAS TREVAS: O plano final de Ledger

 

A morte prematura de Heath Ledger, intérprete da personagem do Joker, em "O Cavaleiro das Trevas", colou ao filme um misto de nostalgia e desencanto.

O certo é que, goste-se ou não, este é um objecto que parece corresponder a um fenómeno que, podemos apostar, não vai parar de crescer - é um fenómeno que resulta do crescente envolvimento do cinema com a banda desenhada e, mais do que isso, com as lógicas figurativas e narrativas dos jogos de video.

Provavelmente, daqui a alguns anos, os descendentes de "O Cavaleiro das Trevas" sairão directamente, não em DVD, mas nas consolas de jogos.

 

I'M NOT THERE - NÃO ESTOU AÍ: A biografia anti-cliché


Se outras vantagens não tivesse, o filme "I'm Not There" serviria para ajudar a desmentir dois lugares-comuns que têm tanto de preguiçoso como de simplificador.

O primeiro é aquele que, à maneira televisiva, julga que uma biografia é um exercício científico e objectivo - nada disso: com "I'm Not There", Todd Haynes propõe um retrato de Bob Dylan em que ele é figurado por seis actores diferentes, um deles uma mulher, Cate Blanchett.

O segundo lugar-comum insiste em atribuir a dimensão experimental do cinema unicamente aos europeus - ora, "I'm Not There" é o mais experimental dos filmes, discute formas e convenções narrativas e vem do coração da América.


ENTRE OS DEDOS: Impressão digital portuguesa


Em termos de ficção audiovisual, é fácil identificar aquela que é a mais poderosa força industrial portuguesa - ou seja, a telenovela, a telenovela com toda a sua retórica e toda a sua visão simplista do mundo.

Daí a primordial importância, importância estética e política, do filme de Tiago Guedes e Frederico Serra, "Entre os Dedos" - tratava-se de apostar em fazer um filme português, genuinamente português pelos temas e pelos lugares, recusando ponto por ponto as convenções das ficções televisivas.

"Entre os Dedos" fica como exemplo de um cinema que procura espectadores que, de facto, se queiram rever nos meandros do cinema e das suas histórias - é um filme cujo valor tem tanto de cinematográfico como de simbólico.

 

GOMORRA: O cinema social italiano

 

Felizmente, e apesar dos seus desequilíbrios, o mercado português não virou as costas à produção cinematográfica italiana. Desde logo no DVD, onde grandes clássicos como Rossellini, Antonioni e Pasolini têm sido regularmente editados. Mas também nas salas vão aparecendo alguns dos títulos marcantes da produção de Itália.

Este ano, "Gomorra", de Mario Martone, esteve na linha da frente desse fenómeno. Distinguido com o Grande Prémio de Cannes, "Gomorra" é um retrato interior, e muito perturbante, da mafia napolitana - e é também, inseparavelmente, a renovada afirmação de um valor muito clássico: o da vocação política e social do melhor cinema italiano.

 

A TURMA: A democracia na sala de aula


Foi, no espaço dos festivais de cinema, o grande acontecimento do ano. Que é como quem diz, ao arrebatar a Palma de Ouro de Cannes, "A Turma", de Laurent Cantet, deu à França um triunfo que lhe fugia há 21 anos e, mais do que isso, relançou no território cinematográfico a discussão da escola e das relações entre professores e alunos.

Um pouco por toda a parte, incluindo no nosso país, "A Turma" transformou-se, por isso mesmo, num duplo acontecimento: foi a confirmação da vitalidade de um olhar realista, em tudo e por tudo resistente ao naturalismo televisivo; e foi também o pretexto para um importante debate público que, como é óbvio, não está encerrado.

 

CORAÇÕES: Melodrama segundo Resnais

 

Se é verdade que a maioria dos espectadores que vão ao cinema têm entre 15 e 25 anos, isso significa que, quando nasceram, Alain Resnais já filmava há cerca de quatro décadas. E, no entanto, poucos como ele continuam a encarar o cinema como um espaço privilegiado de invenção.

"Corações" é um filme em que Resnais demonstra duas coisas insólitas, mas muito precisas: primeiro, que o género melodramático está vivo e de muito boa saúde; depois, que é possível utilizar o espaço do estúdio, não necessariamente para fabricar efeitos especiais com naves e explosões, mas para mergulhar nos enigmas da alma humana.

Além do mais, convém lembrar, um outro filme de Resnais, "Pas Sur la Bouche", saíu directamente em DVD, transformando-o num dos mais versáteis autores do ano cinematográfico.

 

WALL - E: Fábula futurista


A história repete-se, mas é uma história que se repete de forma sempre diferente e sempre estimulante. De facto, os estúdios Pixar continuam a ser os líderes do espaço da animação cinematográfica. Ao mesmo tempo, a sua permanência resulta não apenas de uma cada vez mais impressionante sofisticação técnica, mas também de um elaboradíssimo gosto pelas fábulas.

A história futurista de "WALL-E", o robot que ficou a limpar o lixo da Terra, esse planeta esquecido que os seres humanos abandonaram, é um belo exercício de poesia cinematográfica e também, afinal de contas, um filme com uma actualíssima agenda política e ecológica. Até prova em contrário, a cabeça das nossas crianças fica mais bem tratada com "WALL-E" do que com os "morangos", com açúcar e sem açúcar, que por aí continuam a ser servidos.

W.: Compreender Bush Jr.

 

Por razões talvez inevitáveis, o filme de Oliver Stone foi visto por muitos como uma peça directamente fabricada para intervir na campanha eleitoral que conduziu à eleição de Barack Obama.

Claro que o "timing" do seu lançamento foi pensado em função da actualidade política. Mas seria demasiado simplista reduzir o trabalho de Stone a um mero discurso militante, muito menos panfletário.

Bem pelo contrário. Com o tempo, irá perceber-se, por certo, que "W." é um filme que oferece à sua personagem central, George W. Bush, a possibilidade de existir muito para além dos clichés mediáticos e, sobretudo, televisivos.

"W." é mesmo um filme que relança o conceito de um cinema genuinamente político, empenhado em pensar o poder na sua mais descarnada intimidade.

 

ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS: O ano dos Coen



Nos Oscars, este foi o ano dos irmãos Coen - confirmando uma expectativa que se vinha adensando em anos recentes, Joel e Ethan Coen foram consagrados com "Este País Não É para Velhos", recebendo o Oscar referente ao melhor filme.

Foi uma vitória, no mínimo, curiosa, quanto mais não seja porque os Coen combinam duas vertentes paradoxais: fazem filmes de impecável nostalgia cinéfila e, ao mesmo tempo, ocupam a linha da frente da indústria, trabalhando regularmente com grandes vedetas como George Clooney e Brad Pitt. Aliás, os dois estavam no outro filme dos Coen estreado em 2008: a comédia negra "Destruir Depois de Ler".

Em última análise, os Coen funcionam como uma espécie de aristocracia de Hollywood: representam exemplarmente o sistema, ao mesmo tempo que souberam construir a sua própria liberdade de movimentos.

 

MAMMA MIA!:Revivalismo agudo



Na eterna discussão sobre a possibilidade de retorno do género musical, "Mamma Mia!" introduziu uma nota festiva, talvez inesperada. Isto porque o filme dirigido por Phyllida Lloyd se transformou num fenómeno de bilheteira, capaz de produzir um efeito semelhante ao de "Titanic" - ou seja, o de fazer voltar às salas escuras muitos espectadores que, ao longo dos anos, tinham perdido o hábito de ir ao cinema.

Não parece possível colocar "Mamma Mia!" no mesmo plano dos grandes musicais de Hollywood dos anos 40/50. Seja como for, as canções dos Abba acabaram por funcionar também como um factor de dinamização do mercado dos filmes.

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