Eunice Muñoz morre aos 93 anos

Obituário  

Eunice Muñoz morre aos 93 anos

A atriz Eunice Muñoz morreu hoje, em Lisboa, aos 93 anos. Nunca se imaginou fora do teatro, apesar de sempre se ter considerado "uma mulher como as outras, mãe de seis filhos, com netos e bisnetos".

Eunice Muñoz morreu hoje, no Hospital de Santa Cruz, em Lisboa, informou o filho da atriz. Em novembro de 2021, completara 80 anos de carreira, iniciada no teatro, mas com forte presença também no cinema e na televisão.

Nascida a 30 de julho de 1928, na Amareleja, distrito de Beja, numa rua que hoje tem o seu nome, Eunice Muñoz descende de uma família de três gerações de atores, dos espanhóis Muñoz, no teatro, e dos sicilianos Cardinalli, no circo. Aos cinco anos, já realizava números musicais, na companhia teatral ambulante da família, a Troupe Carmo.

Fixou-se em Lisboa em 1934. Em 1941, estreia-se em "Vendaval", de Virgínia Vitorino, no Teatro Nacional D. Maria II, na então companhia Rey Colaço-Robles Monteiro. Tinha 13 anos e viria a entrar pouco depois para a histórica companhia, ainda adolescente, onde teve como mestra Amélia Rey Colaço. "Senhora D. Amélia Rey Colaço", como dizia. Aos 14 anos, pôde entrar para o Conservatório, de onde saiu aos 17, com o curso de Teatro e uma média final de 18 valores.

A estreia no cinema aconteceu em 1946, em "Camões", de Leitão de Barros. Na altura, entrou também em "Um Homem do Ribatejo", de Henrique de Campos, que também a dirigiria em "Ribatejo" (1950) e "Cantiga da rua" (1955).

"Os vizinhos do rés-do-chão" (1947), de Alejandro Perla, "A morgadinha dos canaviais" (1949), de Caetano Bonucci e Amadeu Ferrari, "O trigo e o joio" (1965), de Manuel Guimarães, "Manhã submersa" (1980), de Lauro António, "Lisboa cultural" (1983), de Manoel de Oliveira, "Repórter X" (1986), "Matar saudades" (1987), de Fernando Lopes, e "Tempos difíceis" (1988), de João Botelho, constam da carreira no cinema. O último filme em que entrou, "Olga Drummond", de Diogo Infante, data de 2019.

Na sua carreira, porém, é o teatro que prevalece.

Após uma interrupção de quatro anos, para se dedicar à família, regressou aos palcos em 1955, para ser "Joana d'Arc", de Jean Anouilh, no Teatro Avenida, em Lisboa, a convite de Vasco Morgado.

Em 1957, interpretou "A desaparecida", de Pirandello, e, pouco depois, com Maria Lalande, Isabel de Castro, Ruy de Carvalho e Curado Ribeiro, entrou para o Teatro Nacional Popular, sob a direção de Francisco Ribeiro (Ribeirinho).

Francisco Ribeiro (Ribeirinho), pioneiro na divulgação do drama contemporâneo, que fez a estreia portuguesa de Samuel Beckett, e Carlos Avilez, que impulsionou o Teatro Experimental de Cascais, destacam-se no trabalho da atriz, na década de 1960.

Com Avilez foi "Fedra", de Jean Racine (1967). Em Cascais, trabalhou também com o encenador argentino Victor Garcia, com quem fez "As Criadas" (1972), de Jean Genet.

Em 1963, partilhou com Laura Alves o prémio de melhor atriz, pelo seu papel em "O milagre de Ana Sullivan", de William Gibson (1963).

Em 1965, na Companhia Portuguesa de Comediantes, fundada por Raul Solnado no recém-inaugurado Teatro Villaret, entrou em "Verão e fumo", de Tennessee Williams (1965), e "As Raposas", de Lillian Hellman (1966), peças que lhe valeram prémios de Imprensa de Melhor Atriz, e de Popularidade, da então revista Rádio e Televisão.

Em 1970, estreou-se na encenação, na Companhia Somos Dois, que criara, com "A Voz Humana", de Jean Cocteau, uma das peças que levou em digressão por Angola e Moçambique, num repertório que se estendeu a "Dois num baloiço", de William Gibson, e "Os dactilógrafos", de Murray Schisgal, com José de Castro.

Cerca de um ano mais tarde, no regresso a Lisboa, a poucas horas da estreia de "A mãe", de Stanislaw Wiktiewicz, sob a direção de Luiz Francisco Rebello, no Teatro S. Luiz, a censura proibiu o espetáculo.

De 1972 a 1976, voltou a afastar-se dos palcos. Fez pequenos trabalhos de televisão e gravou em disco autores como Florbela Espanca e Soror Mariana.

No regresso ao teatro, fez "Equus", de Peter Shaffer (1976), com a empresa Vasco Morgado, e, no Teatro D. Maria, "Felizmente há luar", de Luís de Sttau Monteiro (1978), "A casa de Bernarda Alba", de Lorca (1983), "As memórias de Sarah Bernhardt" (1984), "O gebo e a sombra", de Raul Brandão, "Romance de lobos", de Valle-Inclán (1987), "As fúrias", de Agustina Bessa-Luís (1994), "As troianas", de Sartre (1996).

"O parque" (1985), de Botho Strauss, numa tradução de Alberto Pimenta, com encenação de Stephan Stroux, no Teatro da Cornucópia, "Mãe coragem e os seus filhos" (1986), encenada por João Lourenço, no Teatro Aberto - que viria a ser posto em filme, no ano seguinte, pelo realizador Nuno Teixeira -, "Zerlina", dirigida por João Perry, em 1988, no Teatro da Trindade, cinco anos mais tarde reposta no D. Maria II, são outras das peças que interpretou.

A mágoa da censura


De uma vida inteira no teatro, a única queixa de Eunice Muñoz prendia-se com a ditadura do Estado Novo e as peças que gostava de ter feito e que lhe "foram roubadas" pela censura.

"Eu e toda a minha geração apanhámos efetivamente esse corte medonho, como quem tira um bocado duma perna", disse Eunice Muñoz à agência Lusa em novembro de 2011, referindo-se à ditadura, que marcou 33 anos do seu percurso profissional.

"Esse repertório proibido, fez muita falta", prosseguiu então Eunice Muñoz, exemplificando com "Mãe Coragem", de Bertolt Brecht, que só interpretou em 1986, no Teatro Aberto, dirigida por João Lourenço, mas também com a "Cantora Careca" de Ionesco, que não consta do seu percurso. "E hoje olho para estes jovens com uma grande satisfação, porque, desde a Revolução, não sabem o que isso é, e ainda bem", assegurou.

Na televisão, aceitou o desafio de Nicolau Breyner e participou nas séries cómicas "Nicolau no país das maravilhas" e "Nico d'Obra".

Em 1993, protagonizou "A Banqueira do Povo", de Walter Avancini, seguindo-se outras telenovelas, entre as quais "Todo o Tempo do Mundo", "Porto dos Milagres", "Olhos de Água", "Sonhos Traídos", "Olhos nos Olhos", "Mar de Paixão".

"A Impostora", "Coração malandro", "Mistura fina", "Dei-te quase tudo", "Ilha dos amores" e "Destinos cruzados" contam-se entre as várias telenovelas em que entrou, tendo também participado na versão televisiva de "Equador", de Miguel Sousa Tavares.

"Cinemascope", de Norton Azruk, pelo Teatro Plástico, e "A casa do lago" (2002), dirigida por Filipe la Féria, estão entre os trabalhos de palco de Eunice Muñoz, nos primeiros anos 2000, seguindo-se "Eunice, nome de atriz palco e vida", no âmbito do ciclo Grandes Actores do Teatro São Luiz.

"Miss Daisy", de Alfred Uhry, encenada por Celso Cleto (2006), "A dúvida", de JP Shanley, por Ana Luísa Guimarães (2007), e o monólogo "O ano do pensamento mágico", de Joan Didion (2009), por Diogo Infante, estão entre os últimos trabalhos em palco.

A estes somam-se "O comboio da madrugada", de Tennessee Williams, encenada por Carlos Avilez, e "Cerco a Leninegrado", de José Sanchis Sinisterra, por Celso Cleto, ambas em 2011, nos 70 anos de carreira.

Com a comédia "Cerco a Leninegrado", que a atriz considerou especial por voltar a um género teatral de que dizia gostar e que fez poucas vezes, apresentou-se no início de 2012, no Círculo de Bellas Artes, de Madrid, a sua estreia em palco, na capital espanhola.

Afastada dos palcos desde 2012, regressou em abril do ano passado ao Auditório Eunice Muñoz, em Oeiras, para estrear "A margem do tempo", com a neta, Lídia Muñoz, produção que levou a diferentes palcos do país, numa digressão que culminou no Teatro D. Maria II, em Lisboa, no passado dia 28 de novembro, o mesmo palco, onde exatamente 80 anos antes fizera a sua estreia.

Na altura, chegava às salas de cinema o documentário "Eunice, ou cartas a uma jovem atriz", de Tiago Durão.

Em agosto de 2016, Filipe La Féria anunciou o seu nome para o elenco de "As árvores morrem de pé", mas a atriz não chegou a entrar em cena. A 17 de outubro, a família anunciava que Eunice Muñoz se retirava do elenco, por motivos de saúde.

A um vasto palmarés de prémios, como o de Carreira da Academia Portuguesa de Cinema, em 2015 (quando o D. Maria II promoveu "74 Eunices - Homenagem a Eunice Muñoz", a um ano da celebração dos seus 75 anos de atividade), somam-se distinções oficiais de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1981), grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1991), Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2011), Grã Cruz da Ordem do Mérito (2018) e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (2021). Em 1990, foi-lhe atribuída a Medalha de Mérito Cultural.

No seu percurso, no teatro, somam-se mais de 120 peças, em perto de três dezenas de companhias, segundo a base de dados do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que enumera mais de uma dezena de prémios ao longo da sua carreira. No cinema e na televisão, o nome de Eunice Muñoz está associado a mais de 80 produções de ficção, entre filmes, telenovelas e programas de comédia.

Nos 70 anos de palco, em entrevista à agência Lusa, confessou: "A minha luta é melhorar, melhorar, melhorar. A minha luta é essa mesmo. E nunca fico contente, fico sempre de pé atrás, porque, de uma maneira geral, não gosto de me ver".

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