F FOR FAKE (1974)
Orson Welles por Orson Welles — discutindo a arte, os seus "truques e mentiras"

DVD Memória  

F FOR FAKE (1974)

Na vida dos objectos artísticos, qual a verdade que está em jogo? Ou ainda: quando é que esses objectos nos estão a mentir? Naquele que foi o derradeiro filme que Orson Welles pôde concluir, somos confrontados com a vertigem de tais interrogações.

Quando vemos “O Quadrado”, o filme que ganhou o Festival de Cannes de 2017 e os Prémios do Cinema Europeu, não podemos deixar de pensar que o seu tema fulcral — ou seja: a verdade e a mentira que a arte pode envolver — já foi tratado pelo cinema através das mais diversas abordagens. Mais diversas e, já agora, mais brilhantes: recordemos apenas o genial “F For Fake”, do sr. Orson Welles (1915-1985).

Como diz Orson Welles, este é um filme sobre “truques, fraude e mentiras”. No seu centro está o misterioso Elmyr, personagem do jet-set internacional, conhecido como negociante de arte e também falsificador. Para Orson Welles, Elmyr é, afinal, um símbolo da própria ambivalência que recobre qualquer objecto artístico — trata-se de perguntar qual é o valor da arte e, sobretudo, como é que o determinamos.


Orson Welles vai-nos guiando através de um universo de muitas e insólitas coincidências, e também das mais variadas máscaras. No fundo, trata-se de uma brincadeira — no sentido mais radical que a palavra pode envolver. Através de um prodigioso domínio da arte cinematográfica, “F for Fake” (‘F de Falso’) é um exercício paradoxal, inocente e perverso, através do qual Orson Welles nos mostra como o cinema é a arte suprema de desmascarar a mentira e... baralhar de novo.

Desde o começo da década de 40, com esse filme incrível que é “O Mundo a seus Pés” (1941), Orson Welles tinha o seu nome inscrito na história do cinema como um admirável narrador, combinando o classicismo do olhar com a experimentação formal. “F for Fake”, lançado em 1974, seria o derradeiro projecto que ele concluiu, como quem deixa o testemunho de um autor sempre apostado em discutir os poderes e limites da sua própria linguagem — por isso, quando precisamos de renovar a nossa crença na arte cinematográfica, o melhor é mesmo regressar a Orson Welles.

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publicado 19:23 - 10 dezembro '17

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