FEST - Espinho: diálogo de gerações
"Icon": um documentário polaco sobre um hospital psiquiátrico na Sibéria

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FEST - Espinho: diálogo de gerações

Na sua 13ª edição, o FEST de Espinho cumpriu o objectivo principal de divulgar trabalhos de novos cineastas, ao mesmo tempo criando condições de partilha e aprendizagem com veteranos das mais diversas áreas do cinema.

A 13ª edição do FEST - Festival de Novos Realizadores e Novos Filmes de Espinho terminou com dois vencedores principais:

* Lince de Ouro (ficção):  "Filthy", de Tereza Nvotová (República Checa).
* Lince de Ouro (documentário): "The Road Movie", de Dmitrii Kalashnikov (Bielorrússia).
 
O caso de "The Road Movie" é especialmente sugestivo pelo modo como integra imagens e sons que não foram registados para construir... um filme. Mais exactamente, trata-se de um objecto de cinema fabricado a partir dos registos de pequenas câmaras que, em anos recentes, milhões de automobilistas russos passaram a usar no tablier dos seus veículos. O primeiro objectivo é precaver eventuais situações de conflito, em tribunal, devido a eventos ligados ao trânsito. O certo é que, a partir de um notável trabalho de montagem, o realizador Dmitrii Kalashnikov consegue criar um fluxo que funciona como um estranho e, muitas vezes, perturbante revelador das diferenças e tensões sociais na Rússia contemporânea — eis o trailer (tal como foi apresentado no festival DOXA, Canadá).
 

Também na área documental, outro exemplo magnífico visto em Espinho é "Icon", de Wojciech Kasperski, produção polaca sobre a vida no interior de um hospital psiquiátrico, algures na Sibéria. A partir da experiência de um médico à beira da reforma, somos confrontados com a estranheza do mundo da loucura — e também com a sua delicada proximidade humana. É, além do mais, um exemplo modelar de um olhar que sabe expor um espaço "interdito" sem nunca favorecer qualquer facilidade voyeurista.

Dito isto, convém acrescentar que o FEST 2017 se distinguiu pelo invulgar leque de convidados que foram a Espinho partilhar com a audiência as suas experiências profissionais ['Training Ground']. Registo, aqui, algumas dessas personalidades:
* EDWARD LACHMAN — director de fotografia americano, colaborador regular de Todd Haynes ("Longe do Paraíso", "I'm Not There", "Carol", etc.).
* MELISSA LEO — actriz de cinema e televisão dos EUA, Oscar (melhor secundária) com o filme "The Fighter", de David O. Russell.
* ALLAN STARSKI — designer polaco, colaborador de Andrzej Wajda, Steven Spielberg (oscarizado com "A Lista de Schindler") e Roman Polanski.
* GARY YERSHON — compositor inglês ligado a teatro, cinema e televisão, colaborador regular de Mike Leigh.
* BRIAN MUIR — escultor inglês, ligado à concepção de figuras de "Star Wars", "Harry Potter" e "O Planeta dos Macacos".

Tendo em conta que o objectivo fulcral do FEST é a amostragem de trabalhos de novos cineastas de todo o mundo, a coexistência dos seus filmes com as intervenções destes especialistas nas mais diversas áreas revela-se fundamental. Trata-se, afinal, de criar pontes — técnicas e estéticas —, favorecendo o diálogo entre gerações, diferentes experiências e culturas.

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publicado 20:00 - 25 junho '17

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