Filmar a partir da palavra escrita
"Conversa Acabada" ou a memória do trabalho da escrita — das palavras às imagens

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Filmar a partir da palavra escrita

Na retrospectiva de João Botelho que integra a programação do LEFFEST, a sua primeira longa-metragem, "Conversa Acabada", é um importante momento simbólico — o cineasta ensaiava uma relação sistemática com as matérias de origem literária.

Na retrospectiva de João Botelho (n. 1949) organizada pelo LEFFEST, a sua primeira longa-metragem, "Conversa Acabada" (1981), transporta um especial valor simbólico. E não apenas por essa condição fundadora no interior de uma vasta filmografia; também porque a evocação das cartas e poemas trocados por Fernando Pessoa (Fernando Cabral Martins) e Mário Sá-Carneiro (André Gomes) decorre de uma obsessiva relação com a palavra escrita.


A obra de Botelho está mesmo pontuada pelos mais diversos universos literários, de Pessoa a Agustina Bessa Luís, passando por Eça de Queiroz ("Os Maias", 2014, será mesmo o seu título mais conhecido). No caso particular de "Conversa Acabada", essa pontuação envolve um sugestivo labor geográfico — afinal de contas, Pessoa está em Lisboa, Sá-Carneiro em Paris...

De que geografia falamos aqui? Pois bem, da invenção de um lugar narrativo que se confunde com os poderes mais primitivos do próprio cinema. Provavelmente (é essa, em qualquer caso, a minha perspectiva), "Conversa Acabada" está longe de ser um dos filmes mais perfeitos da obra de Botelho — o certo é que, nessa relação entre o dizer e o mostrar, será um dos mais originais e ousados.

Face a esta possibilidade de revisão (de um filme lançado há quase quatro décadas), podemos recordar o seu impacto no momento da estreia. Subitamente, o património literário português surgia transfigurado através de uma mise en scène cinematográfica que, afinal, ironicamente, integrava um dispositivo televisivo — a projecção de fundo —, dispositivo que, com o passar dos anos, se tornou recurso rotineiro de quase todos os programas de informação.

Outros tempos... Ou talvez não. Dir-se-ia que o cinema iniciava um combate para integrar as novas tecnologias, procurando não se perder na sua dinâmica comercial — hoje em dia, o combate prossegue.
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* ESPAÇO NIMAS
Apresentado por Fernando Cabral Martins e Ana Jotta

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publicado 01:40 - 18 novembro '18

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