Godard, India Song
"História(s) do Cinema": auto-retrato, ou como escrever sobre o ecrã

História  

Godard, "India Song"

Aos 90 anos, Jean-Luc Godard veio dizer que quer fazer mais dois filmes, depois abandonando a sua vida de "fazedor de filmes" — aconteceu num diálogo online, a propósito de um prémio honorário que recebeu da parte do Festival Internacional de Kerala (Índia).

Assim mesmo, sem aviso prévio, em tom de desarmante casualidade: Jean-Luc Godard definiu um limite para concluir o seu trabalho em cinema.

"Estou a acabar a minha vida nos filmes, a minha vida de fazedor de filmes, com dois argumentos e depois direi 'adeus, cinema' " — as palavras de Godard surgiram no meio de uma conversa online motivada pelo prémio honorário que lhe foi atribuído pelo IFFK, ou seja, o International Film Festival of Kerala (Índia). Num diálogo de quase hora e meia com o crítico e professor C. S. Venkiteswaran, Godard, com evidente boa disposição, deu a notícia por volta dos 58 minutos de gravação.


Em boa verdade, nem se tratou de uma "notícia". Pelo menos não teve o peso dramático com que, hoje em dia, o mundo é transformado em narrativa potencialmente trágica, seja porque nos confrontamos com a crueza da pandemia, seja porque o jogador de futebol X ou Y veio confessar que, face ao momento difícil da sua equipa, estão todos, coitados, sob grande pressão...

Dir-se-ia mais um capítulo de um filme feito de história(s). Mais exactamente: uma vida que se confunde com a vontade de perguntar que histórias contamos, como as contamos e de que modo as partilhamos — afinal de contas, Godard encerrou, com contundência e esplendor, a modernidade cinematográfica através dessa obra monumental que é "História(s) do Cinema" (1998).

Ou, se assim o entendermos, podemos também dizer que estamos perante um pequeno filme indiano (seria um bom título...), porventura ecoando as lições de Marguerite Duras, ela que nos legou o fascínio de uma intimidade feita de distâncias no esplendor de "India Song" (1975).

Simplifiquemos — Merci, Monsieur Godard. Aos 90 anos (nasceu a 3 de dezembro de 1930, em Paris), ele vem confirmar, com invejável serenidade, aquilo que os seus filmes nos foram ensinando. A saber: que somos prisioneiros do tempo, "somos feitos de sonhos e os sonhos são feitos de nós", como diz Jean-Paul Belmondo em "Pedro, o Louco" (1965).

Para que não percamos a singeleza da notícia, importa registar os dois filmes que Godard anunciou: "Scenario" e "Funny Wars". Brevemente, num cinema perto de si...

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publicado 00:32 - 12 março '21

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