Guerra, fidelidade e traição
URSS, 1942: Sergei Loznitsa filma as magoadas memórias da guerra

Cannes 2012  

Guerra, fidelidade e traição

Mais um retrato da Segunda Guerra Mundial, desta vez tendo por cenário uma zona fronteiriça da URSS ocupada pelos alemães: é o regresso do ucraniano Sergei Loznitsa à competição da Côte d'Azur.

É bem verdade que Cannes é um festival capaz, não apenas de manter uma galeria de autores eleitos, mas também de a renovar regularmente. Veja-se o exemplo esclarecedor do ucraniano Sergei Loznitsa: a sua primeira longa-metragem de ficção, "A Minha Alegria", foi por muitos considerada a principal revelação do certame de 2010. Agora, dois anos passados, Loznitsa regressa à competição com "V Tumane", em inglês "In the Fog" ("No nevoeiro" ou, talvez, "Em direcção ao nevoeiro").

O menos que se pode dizer é que há uma clara evolução no sentido de uma notável depuração de processos e efeitos narrativos. Desta vez, Loznitsa encena a situação de uma região da fronteira da URSS, em 1942, ocupada pelas tropas alemãs: mais do que um tradicional "filme de guerra", trata-se de um drama que envolve as tensões entre fidelidade e traição.

No centro dos acontecimentos está um homem que vive, entre o desespero e a vergonha, a acusação de colaboracionismo que o acompanha. Num registo de intransigente realismo (em que a própria paisagem adquire o peso de uma verdadeira personagem), Loznitsa propõe uma memória tecida de desencanto e mágua que, no limite, poderá ser interpretada como uma parábola sobre a identidade histórica do seu país.

Não só pelas suas peculiares intensidades, mas também pelo misto de estranheza e proximidade do seu universo, "In the Fog" é um daqueles filmes que, por mero instinto, nos deixa a sensação de não poder sair de Cannes sem algum prémio... Aconteça o que acontecer, é por certo uma das experiências mais singulares e, por assim dizer, mais individualistas de toda a competição oficial.

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publicado 00:35 - 25 maio '12

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