Hollywood já não é o que era
Evan Bird sob o olhar de Cronenberg: onde está o real?

Cannes 2014: MAPS TO THE STARS, David CRONENBERG  

Hollywood já não é o que era

Dois anos depois de "Cosmopolis", David Cronenberg está de volta (e na competição de Cannes) com um filme fabuloso: "Maps to the Stars" propõe uma viagem cruel pela decomposição mítica de Hollywood.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Hollywood já não é o que era
Mapas Para as Estrelas Em Hollywood, cidade dos sonhos, vícios e neuras, as estrelas colidem: um talento infantil com 13 anos, um autor de argumentos e treinador celebridades; uma atriz ansiosa por conseguir um papel. Hollywood também promete felicidade aos que tentam alcançar as estrelas: uma jovem assistente de uma atriz e um atraente motorista de limusine.
Média Cinemax:
4.333

Quando usamos a palavra "Hollywood", nesta segunda década do século XXI, que queremos dizer? Que lugar ou identidade identificamos através de tal palavra?

A resposta implícita no filme "Maps to the Stars" (o título evoca os mapas de Los Angeles que dão a conhecer trajectos turísticos para conhecer as casas de gente célebre) é esta: Hollywood é apenas o fantasma, delirante e letal, da sua própria glória.

Hollywood, de facto, já não é o que era — quem o diz é David Cronenberg, meticuloso e contundente, minimalista e genial, num filme que começa num brilhante argumento de Bruce Wagner. Em cena está, afinal, uma colisão de gerações: de um lado, os filhos como o patético e inquietante Benji (Evan Bird), estrela mimada de 13 anos; do outro, os adultos como a frágil e histérica Havana (Julianne Moore), carpindo as mágoas da fama que não se renova...

Prolongando uma lógica que já se pressentia no anterior "Cosmopolis" (2012), Cronenberg sublinha as intensidades realistas dos gestos, corpos e objectos, ao mesmo tempo que integra as cenas mais oníricas como um apêndice "natural" de um mundo ferido — um mundo em que se perdeu, porventura definitivamente, a capacidade de apropriação do real.

"Maps to the Stars" é um filme seco, austero, alheio a qualquer gratificação redentora, um desses objectos que nos fazem sentir o cinema como máquina de discussão da própria percepção das existências humanas — em Cannes/2014 é, desde já, um dos títulos nucleares de toda a programação.

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publicado 19:37 - 19 maio '14

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