Isto não é David Lynch
Riley Keough — talento esbanjado em "Under the Silver Lake"

Cannes 2018  

Isto não é David Lynch

O realizador americano David Robert Mitchell surge na competição de Cannes com um filme que parece querer recuperar certos modelos "lynchianos": o certo é que "Under the Silver Lake" não passa de uma proposta formalista e pretensiosa.

Tempos houve em que se alguém se atrevia a falar de meta-linguagem, eventualmente referindo o modo como determinado filme sabia des-construir as regras de algumas matrizes clássicas, esse alguém corria o risco de ser acusado de perigoso "intelectual"... Não estou a caricaturar, muito menos a exagerar.

Agora, a "des-construção" é uma moda como qualquer outra e chegou mesmo a um estado de monótona repetição e esvaziamento. Veja-se o medíocre "Under the Silver Lake", do americano David Robert Mitchell (que se tornou conhecido, em 2014, através do filme de terror "Vai Seguir-te"): dir-se-ia que se trata de conseguir uma variação de "Mulholland Dr." (2001), de David Lynch, como se fazer à Lynch fosse acumular "violência" e "imagens bizarras"...


O ponto de partida parece apontar para um misto de desencantado romanesco e ritmo policial em cenários de Los Angeles: um jovem contemplativo e com muitas dívidas (Andrew Garfield) tenta reencontrar a "aparição" de uma mulher (Riley Keough) na piscina do seu prédio de apartamentos... Mas para fazer um filme é preciso um pouco mais do que tratar cada situação como se fosse uma obrigatória derivação onírica (?) da anterior.

É pena que talentos tão especiais como Garfiel e Keough andem à deriva no meio do formalismo pretensioso do filme. Aliás, não apenas no elenco, mas também no departamento técnico (por exemplo, a direcção fotográfica de Mike Gioulakis), há contribuições de evidente competência — falta uma ideia de narrativa que seja também um gesto específico de cinema.

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publicado 23:30 - 16 maio '18

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