Karina & Godard — rodagem de

16 Jun 2019 18:33

Falar de Anna Karina é falar de Jean-Luc Godard. De facto, não é possível dissociar a sua carreira e a sua imagem (as suas imagens) das sete longas-metragens que Karina rodou sob a direcção de Godard, um dos mestres da Nova Vaga francesa. Nascida na Dinamarca, em 1940, chegou a Paris com 17 anos para trabalhar como modelo. Godard filmou-a pela primeira vez em 1960, em dois filmes: “O Soldado das Sombras”, um ensaio político tendo como pano de fundo a Guerra da Independência da Argélia, e “Uma Mulher É uma Mulher”, uma homenagem às comédias musicais de Hollywood em que Karina se estreava a cantar.


Seja como for, para além de Godard, o nome de Karina está presente em diversos títulos de cineastas tão importantes como Valerio Zurlini, Luchino Visconti ou ainda outro autor emblemático da Nova Vaga, Jacques Rivette. Foi sob a direcção de Rivette que, em 1966, interpretou “A Religiosa”, uma adaptação da obra de Denis Diderot publicada em finais do século XVIII, centrada na figura de uma jovem noviça que, não se reconhecendo no trajecto religioso que lhe querem impor, pede para sair de um convento — foi um filme que abalou a sociedade francesa em meados dos anos 60 e que, para além dessas convulsões, permanece um clássico absoluto da Nova Vaga.


Uma das mais belas composições de Anna Karina está em “Viver a Sua Vida”, título de 1962 em que Godard introduzia um tema transversal a toda a sua obra: a prostituição, aliás, a mercantilização do corpo, a formatação dos afectos, o esvaziamento das relações humanas. Num célebre e belíssimo diálogo com o filósofo Brice Parain, ela questionava os enigmas das palavras: “É estranho, de repente não sei o que dizer. Acontece-me muitas vezes: sei o que quero dizer, reflicto antes de o dizer para ter a certeza de que é mesmo o que quero dizer, mas no momento de o dizer… já não sou capaz de o dizer.”


Sim, evidentemente — diz Brice Parain. No cinema de Godard, Anna Karina encarnou esse misto de transparência e mistério que faz com que oscilemos entre o somos e o que imaginamos, o que dizemos e o que não sabemos dizer — por vezes, há mesmo coisas que não é possível dizer, a não ser cantando. Em 1965, no filme “Pedro, o Louco”, símbolo mítico da Nova Vaga, Karina interpretava com Jean-Paul Belmondo uma deliciosa canção, tão irónica quanto romântica, pontuada por um trocadilho entre a linha do destino na mão dela e a linha das suas ancas — em francês soa melhor: “Ma ligne de chance”, “Ta ligne de hanches”.

  • cinemaxeditor
  • 16 Jun 2019 18:33

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