KES - OS DOIS INDOMÁVEIS (1969)
David Bradley e o seu falcão — realismo britânico

DVD Memória  

KES - OS DOIS INDOMÁVEIS (1969)

Com uma carreira de mais de meio século, Ken Loach é uma das referências exemplares e incontornáveis do realismo britânico — o seu "Kes", sobre a relação de um rapaz e o seu falcão, pode servir de memória esclarecedora.

“Passámos por Cá”, o novo filme do inglês Ken Loach foi um dos momentos altos do Festival de Cannes de 2019. Não teve qualquer prémio, é verdade, mas consolidou uma certeza muito forte: o realismo britânico continua a ser uma poderosa força narrativa. Ken Loach, convém lembrar, está longe de ser um principiante neste registo: aos 83 anos de idade, possui uma obra com uma trajectória de mais de meio século — "Kes" é uma memória incontornável.


“Billy Casper faz batota, rouba, mente, luta... porque... pois bem... porque tem de o fazer... Quando se é diferente dos outros, quando não se pertence a qualquer lugar, então é preciso resistir sozinho... A não ser que se tenha um amigo como Kes” — é assim que o trailer original do filme “Kes”, realizado por Ken Loach em 1969, apresenta a relação de um rapazinho indefeso, Billy Casper, com o seu amigo Kes. A sua odisseia acontece num ambiente escolar, familiar e social eminentemente tradicional.

Acontece que Kes, o amigo de Billy Casper, não é humano. Kes é um falcão (da palavra inglesa “kestrel”) que Billy recolheu e com quem aprendeu a conviver, numa aliança que, para ele, representa uma componente fulcral da sua existência. Ken Loach consegue filmar essa tão especial relação como uma espécie de fábula juvenil que, em qualquer caso, nunca perde o contacto com as componentes muito cruas da vida de Billy e Kes; por alguma razão, o subtítulo português de “Kes” é “Os Dois Indomáveis” — da excelente banda sonora de John Cameron, esta é a música que acompanha o primeiro voo de Kes.


Depois de “Kes”, Ken Loach assinou muitos títulos marcantes, procurando sempre reflectir as convulsões sociais e históricas do seu próprio país. E é mesmo dos poucos que já conseguiu ganhar duas vezes a Palma de Ouro de Cannes: em 2006, com “Brisa de Mudança”, e em 2016, com “Eu, Daniel Blake”. A sua atenção ao quotidiano social faz com que, muitas vezes, integre nas bandas sonoras músicas e canções que fazem parte do imaginário popular — no caso de “Kes”, um bom exemplo será “Honey (I Miss You)”, um sucesso de 1968 composto e interpretado por Bobby Russell.

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publicado 12:59 - 22 novembro '19

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