Kiarostami em tom... japonês
Rin Takanashi: uma japonesa dirigida por um cineasta do Irão

Cannes 2012  

Kiarostami em tom... japonês

Abbas Kiarostami, já vencedor de uma Palma de Ouro, está de volta à competição de Cannes com o brilhante "Like Someone in Love": uma história filmada no Japão, com personagens e actores japoneses.

Decididamente, hoje em dia, qualquer visão "nacionalista" do cinema corre o risco de passar ao lado do essencial. Muitos filmes resultam de colaborações entre vários países e, mais do que isso, nascem de projectos artísticos em que a relação de um determinado realizador com uma realidade "estrangeira" é determinante.

Veja-se o exemplo de "Like Someone in Love" (competição). O título remete para uma canção de Dinah Shore, composta pela dupla Jimmy Van Heusen/Johnny Burke e pertencente à banda sonora de um musical de Hollywood, "Belle of the Yukon" (1944). De qualquer modo, a versão aqui utilizada é a de Ella Fitzgerald. Mas o filme em questão não tem nada de americano, tendo sido realizado pelo iraniano Abbas Kiarostami em cenários japoneses, com actores japoneses.

O menos que se pode dizer é que "Like Someone in Love" reconfigura dois ou três temas emblemáticos de Kiarostami, cineasta que já tem no seu curriculum uma Palma de Ouro (em 1997, com "O Sabor da Cereja", ex-aequo com "A Enguia", de Shohei Imamura). A saber:
- uma sensação instável do espaço, passível de abrir sempre para zonas desconhecidas;
- uma profunda ambivalência do tempo narrativo, sistematicamente "interrompido" por acontecimentos secundários (que se tornam principais);
- enfim, uma visão das relações humanas em que a palavra pode ser tanto veículo de transmissão como barreira que apela ao silêncio.

O ponto de partida tem algo de insólito, potencialmente burlesco, e envolve a visita de uma "call girl" (Rin Takanashi) a um velho escritor e tradutor (Tadashi Okuno). Da sua convivência, durante cerca de 24 horas, vai nascer uma série de incidentes que põem à prova o estatuto familiar ou social de cada um e, no limite, a sua relação com a verdade.

Porque talvez seja esse o tema obsessivo de Kiarostami: o de observar tudo aquilo que, nas relações humanas, é suposto envolver transmissão e, não poucas vezes, acaba por se transfigurar em bloqueamento. Filmes como "Like Someone in Love", ou o anterior "Cópia Certificada" (2010), talvez não envolvam as mesmas especulações políticas que as suas produções iranianas arrastavam. O certo é que Kiarostami se mantém fiel a si próprio, apenas assumindo os efeitos de uma calculada mudança de cenários.

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publicado 23:25 - 22 maio '12

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