Kirk Douglas — a morte de um gigante de Hollywood
"A Vida Aapixonada de Van Gogh", um dos filmes em que foi dirigido por Vincente Minnelli

Obituário  

Kirk Douglas — a morte de um gigante de Hollywood

Aos 103 anos de idade, morreu o homem que interpretou Van Gogh e Spartacus: Kirk Douglas, também um produtor associado a alguns títulos marcantes, é um símbolo exemplar da idade de ouro de Hollywood.

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Para conhecermos e compreendermos a idade de ouro de Hollywood, Kirk Douglas é uma fundamental personalidade, um verdadeiro gigante da história e da mitologia da "fábrica de sonhos" — o actor americano faleceu no dia 5 de fevereiro, em Beverly Hills, Califórnia, contava 103 anos de idade.

Nasceu a 9 de Dezembro de 1916, em Nova Iorque, no seio de uma família judaica proveniente da Rússia — o seu nome de baptismo era Issur Danielovitch. Embora alimentando o sonho de ser actor, os parcos recursos familiares fizeram com que tivesse muitos e variados empregos, só se estreando no cinema depois de ter cumprido o serviço militar. As suas experiências de representação começaram na rádio e no teatro. O seu primeiro filme foi o melodrama "O Estranho Amor de Martha Ivers" (1946), dirigido por Lewis Milestone e protagonizado por Barbara Stanwyck.

De uma filmografia imensa (quase uma centena de títulos, a partir dos anos 80 predominantemente televisivos), vale a pena recordar alguns momentos emblemáticos:

* CHAMPION / O Grande Ídolo (1949) — com realização de Mark Robson, nele assume a figura de um pugilista arrivista, num drama moral que pode servir de modelo de muitas ficções em que participou (a par, por exemplo, de "O Grande Carnaval", de 1951, assinado por Billy Wilder); valeu-lhe a sua primeira nomeação para o Oscar de melhor actor.

* THE BAD AND THE BEAUTIFUL / Cativos do Mal (1952) — segunda nomeação para o Oscar; é uma das obras-primas da filmografia de Vincente Minnelli e um dos filmes mais subtis, e também mais contundentes, que já se fizeram sobre os bastidores de Hollywood.


* LUST FOR LIFE / A Vida Apaixonada de Van Gogh (1956) — de novo com Minnelli, um dos dos cineastas com quem trabalhou mais vezes, este filme valeu-lhe mais uma nomeação para o Oscar; o retrato do pintor é feito através de um exuberante envolvimento da vida vivida e da vida sonhada, das cores das paisagens e das cores dos quadros (Anthony Quinn, no papel de Paul Gauguin, ganhou o Oscar de actor secundário).

* THE ARRANGEMENT / O Compromisso (1969) — é um dos filmes que, simbolicamente, encerra as grandes narrativas do classicismo de Hollywood, encenando a cruel desagregação de um casal exposto ao espelho da sua intimidade: Douglas contracena com Faye Dunaway, pertencendo a realização a Elia Kazan (também autor do argumento, a partir do seu romance pleno de referências auto-biográficas).

* THE FURY / A Fúria (1978) — sempre disponível para a renovação geracional de Hollywood, Douglas surge, aqui, num dos pesadelos familiares da primeira fase da obra de Brian de Palma — o resultado é um genuíno e perverso exercício de estilo, também com John Cassavetes e Amy Irving.


Desde muito cedo, Douglas construiu uma carreira em que o cuidado posto nas escolhas de representação foi a par de uma singular estratégia de produtor. Exemplo emblemático poderá ser "Paths of Glory / Horizontes de Glory" (1957), produção independente que lançou de forma decisiva o seu realizador: Stanley Kubrick. Foi graças ao actor/produtor que Kubrick foi convidado para dirigir a superprodução "Spartacus" (1960), também por ele protagonizada.

Na lista de filmes a que ficou ligado como produtor incluem-se ainda, por exemplo, "O Último Comboio de Gun Hill" (1959), um "western" dirigido por John Sturges, "Sete Dias em Maio" (1964), drama dos bastidores politico-militares com assinatura de John Frankenheimer, e "O Grande Prémio" (1966), de novo com Frankenheimer, sobre o mundo da Fórmula 1.

Entre os livros que escreveu, incluem-se várias dissertações auto-biográficas, com destaque para "The Ragman's Son" (1988), evocando em particular as suas raízes familiares. As suas três nomeações para o Oscar de melhor actor não lhe valeram qualquer estatueta dourada; acabou por receber um prémio honorário, em 1996, com a Academia de Hollywood a defini-lo como "uma força criativa e moral da comunidade cinematográfica".

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publicado 02:28 - 06 fevereiro '20

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