Lars von Trier: o medo primordial

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Lars von Trier: o medo primordial

Com "Antichrist", o dinamarquês Lars von Trier viaja pelo labirinto das relações homem/mulher. Aconteça o que acontecer, este filme marca de forma indelével a edição nº 62 de Cannes.

Simplifiquemos (o festival ainda não chegou a meio e o cinéfilo deve tentar gerir o melhor possível as suas próprias energias).

Digamos que podemos redigir uma sinopse mais ou menos escabrosa sobre o Antichrist, de Lars von Trier: a crise vivida pelo par interpretado por Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe, na sequência da morte acidental do seu filho, é um teatro de muitas e exuberantes violências, justificando que este seja um filme descrito (e indexado) na categoria dos filmes de terror.

Não adiante contrariar tal classificação, quanto mais não seja porque vamos (também) assistir à sua exponenciação pelas formas mais vulgares de jornalismo. Digamos, então, que vale a pena aceitar tal classificação, mas para a reconverter às suas origens. Ou seja: o terror como matriz da fábula e exercício laborioso de despertar dos fantasmas. E ainda: a fábula como modelo de abordagem do medo primordial da morte.

Antichrist é isso tudo e mais os espectros atentos a isso tudo. Que é como quem diz: um conto delirante sobre a relação homem/mulher e, em particular, sobre a revolta da mulher contra a sua condição de personagem secundária nas ficções e nas religiões.

Simplifiquemos, insisto. Antichrist é um espantoso exercício de cinema, capaz de interrogar de forma drástica, não apenas o sentido do espectáculo, mas também a condição do espectador.

Aconteça o que acontecer até ao anúncio da Palma da Ouro, Cannes 2009 vai ficar para a história como "o festival de Antichrist". É assim que se faz a história.

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