Estreias  

"Mank" ou o cinema como espelho do cinema

Com dez nomeações para os Óscares, "Mank", de David Fincher, faz-nos viver um ziguezague cinéfilo: é um produto deste nosso tempo de "streaming" e, ao mesmo tempo, uma belíssima revisitação da idade de ouro de Hollywood.

Mank ou o cinema como espelho do cinema
Na rodagem de "Mank", ou o cinema dentro do cinema
Crítica de
Subscrição das suas críticas
155
Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Mank ou o cinema como espelho do cinema
Mank A Hollywood dos anos 30 é reavaliada através do olhar do mordaz crítico social e argumentista alcoólico Herman J. Mankiewicz, enquanto este tenta concluir o argumento de "O Mundo a Seus Pés" para Orson Welles.
Artigo recomendado:
Mank ou o cinema como espelho do cinema
Oscar 2021
Óscares 2021: as nomeações por filme Fique a conhecer as nomeações obtidas por cada filme.

A actualidade de "Mank" surge reforçada por uma performance sempre invulgar. A saber: o filme de David Fincher tem nada mais nada menos que dez nomeações para os Óscares, incluindo melhor filme, melhor realização e ainda duas categorias de interpretação — melhor actor e melhor actriz secundária, respectivamente para Gary Oldman e Amanda Seyfried.

Em todo o caso, será a direcção fotográfica de Erik Messerschmidt (também nomeado) a poder simbolizar de modo mais sugestivo a proeza de "Mank". Trata-se de fazer como se estivéssemos em plena idade de ouro de Hollywood, concebendo um preto e branco que, embora gerado digitalmente, contém as componentes específicas de um look muito anos 30/40.

Dito de outro modo: tendo em conta que "Mank" evoca a gestação do clássico "Citizen Kane" (1941), de Orson Welles, pode dizer-se que existe uma linha de cumplicidade entre o trabalho revolucionário de Gregg Toland, director de fotografia de Welles, e aquilo que, agora, caracteriza a tão notável contribuição de Messerschmidt para "Mank".

Daí o paradoxo central deste filme fascinante: existe como um produto típico deste nosso tempo de muitas derivações virtuais (é mesmo um objecto de "streaming", por excelência, produzido e difundido pela Netflix), mas envolve uma revisitação histórica e mítica de Hollywood que nos leva a repensar, renovar e reforçar os nossos laços cinéfilos — como num espelho.

Daí também duas sugestões: primeiro, uma visita ao site "Mank, the Unmaking", precisamente sobre os conceitos que presidiram à fabricação de "Mank", do trabalho com os actores ao tratamento do som, passando, claro, pela direcção fotográfica; depois, naturalmente, uma revisão do clássico "Citizen Kane/O Mundo a seus Pés" (1941), de Orson Welles [trailer, 75º aniversário].

Crítica de João Lopes actualizado às 19:53 - 19 março '21
publicado 19:43 - 19 março '21

Recomendamos: Veja mais Críticas de João Lopes