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Marxismo em versão punk

Susanna Nicchiarelli faz o retrato de Eleanor Marx, definindo-a como uma antepassada dos movimentos feministas do nosso tempo — os resultados têm tanto de sugestivo como de esquemático.

Marxismo em versão punk
Romola Garai no papel de Eleanor Marx, ao som dos Downtown Boys
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 Marxismo em versão punk
Miss Marx Brilhante, inteligente, apaixonada e livre, Eleanor é a filha mais nova de Karl Marx. Uma das primeiras mulheres a abordar os temas do feminismo e socialismo, participa na luta dos trabalhadores, pelos direitos das mulheres e pela abolição do trabalho infantil. Em 1883, conhece Edward Aveling e sua vida é destruída por uma apaixonada mas trágica história de amor.

Convenhamos que ainda há filmes capazes de nos surpreender... Ou, pelo menos, à falta de melhor, desconcertar. "Miss Marx", de Susanna Nicchiarelli, é um desses filmes: uma crónica sobre a filha mais nova de Karl Marx em que a sua militância política surge "ilustrada" por alguns "desvios" narrativos pontuados pela sonoridade punk dos Downtown Boys — incluindo uma versão paródica do clássico "Dancing in the Dark", de Bruce Springsteen.

Como é que as memórias de Eleanor Marx, na segunda metade do século XIX, sustentam esta metafórica "actualização"? Em boa verdade, o filme não está muito preocupado com isso, satisfazendo-se, precisamente, com o efeito de surpresa. Os resultados são esquemáticos e simplistas, mas não deixam de envolver uma sugestiva interrogação: será que se pode dizer que Eleanor foi uma espécie de antepassada das militantes feministas da nossa modernidade?

A pergunta envolve elementos históricos, claro, quanto mais não seja porque encontramos nas décadas finais do século XIX sinais pioneiros dos movimentos de emancipação feminina que, em momentos diversos, marcaram as dinâmicas sociais e políticas do século XX. Ao mesmo tempo, não pode deixar de envolver também um misto de distanciamento e ironia — afinal de contas, não há situações históricas que se possam sobrepor: a militância de Eleanor aconteceu face aos efeitos da Revolução Industrial e escusado será lembrar que as componentes económicas e políticas dessa época têm tanto de específico como de irredutível.

O filme joga com o "impossível". Ou seja: encenar Eleanor Marx (Romola Garai) como uma militante cuja revolta se pode colocar em paralelo com a sensibilidade da música punk. Digamos que a ironia tem dificuldade em funcionar. E não deixa de ser bizarro que em alguns momentos "Miss Marx" procure esse "excesso" de simbolismo quando, de facto, a maior parte das suas cenas possui, pelo menos, a competência académica de um tradicional retrato biográfico.

Crítica de João Lopes
publicado 17:08 - 10 junho '21

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