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Maupassant no século XXI

Eis um dos grandes acontecimentos deste Verão cinematográfico: com "A Vida de uma Mulher", Stéphané Brizé consegue uma excepcional adaptação do romance "Une Vie", de Guy de Maupassant — com uma actriz de enorme talento, chamada Judith Chemla.

Maupassant no século XXI
Judith Chemla — uma actriz brilhante num filme admirável
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 Maupassant no século XXI
A Vida de Uma Mulher Normandia, 1819. Acabada de sair do convento onde estudara, Jeanne Le Perthuis des Vauds, uma jovem até aí muito protegida e ainda cheia de sonhos infantis, casa-se com Julien de Lamare. Este depressa se revela mesquinho, brutal e volúvel. Aos poucos, as ilusões de Jeanne começam a esfumar-se. O filme inspira-se na obra de Guy de Maupassant.

É verdade que o grande cinema não precisa de qualquer caução literária para acontecer. Mas não será menos verdade que há grande cinema, desde o mudo até à nossa actualidade, que se enraiza numa elaborada relação com as matérias literárias, nelas colhendo acontecimentos susceptíveis das mais inusitadas transfigurações cinematográficas — "A Vida de uma Mulher", do francês Stéphane Brizé, é um admirável exemplo de tal relação.

Vale a pena recordar que conhecemos o trabalho de Brizé através de "A Lei do Mercado", um drama contemporâneo sobre o emprego/desemprego que valeu a Vincent Lindon o prémio de interpretação masculina em Cannes/2015. Na verdade, algo da relação sensual da câmara com Lindon está, de novo, presente no modo como Brizé filma a brilhante Judith Chemla no papel de Jeanne.

Sem esquecer a literatura, precisamente, importa lembrar: Jeanne é a personagem central do romance que o filme adapta, "Une Vie", de Guy de Maupassant (publicado em 1883). A sua condição de mulher — num contexto social em que o estatuto feminino existe delimitado por muitas regras conjugais e familiares — é, afinal, desafiada pelos dramas que enfrenta, a começar pela traição do marido.

Muito mais do que um "símbolo" fechado, Jeanne surge no filme de Brizé como um ser compelido a conhecer e afirmar a sua própria identidade através de um jogo de contrastes e contradições, coisas ditas e palavras silenciadas. "A Vida de uma Mulher" é um filme sobre o labirinto em que tudo isso acontece — o mais discreto gesto pode ser tão intenso como o diálogo mais contundente e, não poucas vezes, a violência emocional esconde-se nas serenas paisagens do quotidiano.

Crítica de João Lopes
publicado 23:46 - 11 agosto '17

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