Melodrama & história

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De Itália chega-nos "Vencer", de Marco Bellocchio, mais um magnífico exemplo de conciliação da memória histórica com as componentes do género melodramático

Será que existe uma zona de equilíbrio entre a tradicional evocação histórica e as convulsões próprias do género melodramático? Marco Bellocchio, um dos grandes veteranos do cinema italiano, acredita que sim — "Vencer" é a prova real dessa crença, revisitando de forma subtil a história atribulada de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), primeira mulher de Benito Mussollini, por ele menosprezada e impedida de participar nos rituais da vida pública.

E não deixa de ser insólito que um filme destes provenha de uma cinematografia que, quase sempre, nos surge definida como em estado de "crise". É um facto que a mediocridade galopante da televisão abalou, e muito, a produção cinematográfica italiana; mas é também verdade que alguns autores italianos têm sabido manter-se fiéis a valores — narrativos e estéticos — que, no fundo, os enquadram na grande tradição social do cinema de Itália.

Bizarro é o facto de "Vencer" chegar às salas portuguesas doze meses passados sobre a sua apresentação no Festival de Cannes de 2009. Não que isso diminua o seu interesse e importância. Em todo o caso, importa voltar a questionar a dinâmica interna de um mercado que continua a revelar tantas dificuldades para manter uma relação activa com a actualidade cinematográfica (nomeadamente a que é gerada pelos grandes festivais). Até que ponto estes desequilíbrios estão a decompor a base de sustentação do próprio público?
 

 


Poster de «Vencer»

VENCER

Ida Dalser foi o primeiro amor de Benito Moussolini. Depois de uma relação impetuosa entre os dois da qual resultou um casamento e um filho, Benito, negando qualquer relação com aquela mulher, manda interná-los num asilo por demência, mandando destruir todos os registos médicos, assim como os supostos arquivos de casamento. Desta forma, mãe e filho são renegados e apagados da História.

De Marco Bellocchio com Filippo Timi, Giovanna Mezzogiorno, Michela Cescon; Drama; 128m
; M/12; FRA, ITA; 2009

>Ouça a crítica de João Lopes

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