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Memória, história e desenhos animados

"As Andorinhas de Cabul" é uma longa-metragem francesa que evoca a vida em Cabul, sob o jugo dos talibãs — com a particularidade de o fazer através de uma "reconstituição" em animação.

Memória, história e desenhos animados
Os desenhos animados evocam a vida em Cabul, no ano de 1998
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 Memória, história e desenhos animados
As Andorinhas de Cabul No Verão de 1998, o Afeganistão estava praticamente todo controlado pelos talibãs, a começar pela capital, Cabul. Mohsen e Zunaira são um casal de jovens namorados. Amam-se profundamente. E apesar da violência e da miséria que se vive no dia-a-dia, eles acreditam no futuro, no seu futuro. Mas um gesto tonto de Moshen vai virar a vida deles ao contrário.

Eis um filme que, quer queiramos, quer não, nos suscita uma pergunta prática e pedagógica. A saber: como retratar Cabul, em 1998, sob o violento domínio dos talibãs,... através de desenhos animados?

Não é uma problema de legitimidade, antes uma questão de dramaturgia. Porquê? Porque, também quer queiramos, quer não, o imaginário cinéfilo da animação envolve quase sempre mundos mais ou menos fantasistas, não a observação realista.

O mínimo que se pode dizer de "As Andorinhas de Cabul", de Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec, é que estamos perante um objecto que resiste e supera tais hesitações, assumindo-se por inteiro como um testemunho da desumanidade dos talibãs (tendo como base o romance homónimo de Yasmina Khadra) — a odisseia de dois jovens namorados emerge, assim, como uma réstia de resistência e poesia que, de uma maneira ou de outra, a história irá resgatar.

"As Andorinhas de Cabul" não é, afinal, uma experiência isolada. Para nos ficarmos por uma referência modelar, lembremos o notável "documentário-em-desenhos-animados" de Ari Folman, "Valsa com Bashir" (2008), sobre a guerra do Líbano em 1982.

É pena que, desta vez, todos os mecanismos de construção dramática, incluindo a planificação interna de cada cena, decorram de um academismo pouco envolvente. Seja como for, registe-se a ousadia do desafio e, muito em particular, a recuperação de um modelo de desenho, não dependente das manipulações digitais, antes ligado à tradição da aguarela.

Crítica de João Lopes
publicado 00:28 - 12 junho '21

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