Memórias da Grécia e da Europa
"O Olhar de Ulisses": Angelopoulos revisitando a história dos Balcãs

Cinema Europeu  

Memórias da Grécia e da Europa

Com a morte de Theo Angelopoulos desaparece aquele que foi um dos principais embaixadores do cinema (e da cultura) da Grécia: através dos seus filmes, somos levados a repensar as relações entre o individual e o colectivo.

Artigo recomendado:
Memórias da Grécia e da Europa
Cinema Europeu
Morreu Theo Angelopoulos O realizador grego Theo Angelopoulos morreu esta terça-feira, atropelado por uma moto, numa rua de Atenas.

Infelizmente, nos últimos tempos, sobretudo graças à acção de muitos lugares-comuns mediáticos, a palavra "Grécia" quase só serve para conotar uma ideia de confusão e irrisão. Com a inesperada notícia da morte do realizador Theo Angelopoulos, podemos pelo menos recordar que há mais Grécia para além da agitação dos telejornais.

Durante muito tempo, Angelopoulos foi mesmo o principal embaixador do cinema grego e, em boa verdade, da cultura do seu país. Nos anos 70 e 80, em especial, o seu trabalho impôs-se como desafio às normas tradicionais de abordagem da história, cruzando o individual e o colectivo através de uma linguagem tão arrojada como sedutora.

"A Viagem dos Artistas" (1975), entre nós estreado no Festival da Figueira da Foz, pode ser tomado como símbolo eloquente do melhor dos seus conceitos de mise en scène. Evocando os tempos da Segunda Guerra Mundial e as suas sequelas sociais e morais, Angelopoulos cria longas cenas registadas em planos-sequência, recriando as próprias coordenadas espaciais e temporais, cruzando de forma subtil as memórias da Grécia e da Europa. Em boa verdade, no seu filme, pode saltar-se de uma época para outra sem sair do mesmo plano.

Ironicamente, a sua consagração com a Palma de Ouro de Cannes, em 1998, aconteceu com um dos seus filmes mais retóricos, "A Eternidade e um Dia", de algum modo "imitando" os momentos mais fortes dos seus títulos anteriores. Em 1995, com o magnífico "O Olhar de Ulisses", arrebatara o Grande Prémio do Júri, também em Cannes: com Harvey Keitel no papel central, deambulamos pelas memórias dos irmãos Manakis (pioneiros do cinema), numa viagem que se transfigura numa reflexão sobre as convulsões políticas de toda a região dos Balcãs.

por
publicado 01:01 - 26 janeiro '12

Recomendamos: Veja mais Artigos de Cinema Europeu