Sérgio Praia, Victoria Guerra e Filipe Duarte — histórias da nossa história


joao lopes
22 Ago 2019 1:24

A aproximação do filme "Variações" aos recentes "Bohemian Rhapsody" (2018) e "Rocketman" (2019), respectivamente sobre Freddie Mercury e Elton John, talvez seja inevitável. Não no sentido de atrair qualquer comparação simplista, "pró" ou "contra", entre as suas personagens centrais. Antes porque, com resultados diversos, por todos eles perpassa o poder transfigurador da música.

Nesta perspectiva, pode dizer-se que a longa-metragem realizada por João Maia sobre António Variações (1944-1984) começa por cumprir uma função narrativa, a que apetece chamar didáctica, de revisitação dramática de uma personagem. Não se trata de filmar Variações como um "herói à força", mas de expor as singularidades de um ser humano — complexo e irredutível.
Tal irredutibilidade encontra a sua exemplar concretização na composição de Sérgio Praia. A meu ver, será precipitado deduzir que a energia do seu trabalho resulta da (incrível) semelhança física com António Variações. Na verdade, o que mais conta é o que acontece a partir de tal semelhança. A saber: a definição de uma personagem.
Interpretando os fundadores da discoteca Trumps, local indissociável da trajectória artística de Variações, Filipe Duarte e Victoria Guerra são outros dois bons exemplos de um elenco que, globalmente, consegue evitar o "pitoresco" das opções telenovelescas. Por tudo isso, na sua singeleza, "Variações" é um objecto apostado em revisitar memórias que, afinal, se cruzam com a nossa história social e o nosso imaginário artístico. Nos tempos que correm, a sua sobriedade merece ser descoberta e partilhada.

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