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Memórias musicais, memórias portuguesas

Passados 35 anos sobre o seu falecimento, António Variações surge no centro de um filme que evoca a sua trajectória pessoal e artística: Sérgio Praia, intérprete de Variações, surge como peça central da realização de João Maia.

Memórias musicais, memórias portuguesas
Sérgio Praia, Victoria Guerra e Filipe Duarte — histórias da nossa história
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 Memórias musicais, memórias portuguesas
Variações "Variações" retrata a vida de António Ribeiro, barbeiro e figura da movida lisboeta no final dos anos 70, perseguindo o seu sonho de se tornar cantor e compositor, apesar de não saber uma nota de música. O filme foca o processo de transformação na persona de António Variações, artista excêntrico e popular cuja carreira fulgurante foi interrompida pela sua morte em 1984.

A aproximação do filme "Variações" aos recentes "Bohemian Rhapsody" (2018) e "Rocketman" (2019), respectivamente sobre Freddie Mercury e Elton John, talvez seja inevitável. Não no sentido de atrair qualquer comparação simplista, "pró" ou "contra", entre as suas personagens centrais. Antes porque, com resultados diversos, por todos eles perpassa o poder transfigurador da música.

Nesta perspectiva, pode dizer-se que a longa-metragem realizada por João Maia sobre António Variações (1944-1984) começa por cumprir uma função narrativa, a que apetece chamar didáctica, de revisitação dramática de uma personagem. Não se trata de filmar Variações como um "herói à força", mas de expor as singularidades de um ser humano — complexo e irredutível.

Tal irredutibilidade encontra a sua exemplar concretização na composição de Sérgio Praia. A meu ver, será precipitado deduzir que a energia do seu trabalho resulta da (incrível) semelhança física com António Variações. Na verdade, o que mais conta é o que acontece a partir de tal semelhança. A saber: a definição de uma personagem.

Interpretando os fundadores da discoteca Trumps, local indissociável da trajectória artística de Variações, Filipe Duarte e Victoria Guerra são outros dois bons exemplos de um elenco que, globalmente, consegue evitar o "pitoresco" das opções telenovelescas. Por tudo isso, na sua singeleza, "Variações" é um objecto apostado em revisitar memórias que, afinal, se cruzam com a nossa história social e o nosso imaginário artístico. Nos tempos que correm, a sua sobriedade merece ser descoberta e partilhada.

Crítica de João Lopes
publicado 00:24 - 22 agosto '19

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