Moonage Daydream: o documentário diferente sobre Bowie

Cannes 2022  

"Moonage Daydream": o documentário diferente sobre Bowie

"Moonage Daydream" de Brett Morgen, que já realizou um documentário sobre Kurt Cobain, quebra as regras do género em redor de David Bowie.

Esqueça os formatos clássicos com peritos ou pessoas próximas do artista filmados em estúdios de gravação. Em "Moonage Daydream", apenas ouvimos e vemos David Bowie falar através de imagens de arquivo inéditas que nem sequer estão divididas cronologicamente, mas por tema (processo criativo, arte e dinheiro, etc.).

A pontuar cada capítulo, imagens geradas por computador especialmente criadas brincam no espaço e nas estrelas. Uma escolha óbvia para o artista que criou a personagem dor astronauta do Major Tom para a canção "Space Oddity".

Entre estas imagens e 48 canções remasterizadas, o espectador obtém algo próximo de uma "experiência imersiva, como num planetário", afirma Brett Morgen, entrevistado pela AFP durante o 75º Festival de Cannes, onde o documentário está a ser apresentado fora de competição.

Este americano, que antes assinou "Kurt Cobain: Montage Of Heck", uma obra mais tradicional, fala num tom animado. Este trabalho levou-lhe cinco anos e é o primeiro do género autorizado pelos legatários de Bowie desde a sua morte em 2016. Foram eles que deixaram Morgen abrir as arcas do tesouro.


Um arquivo conservado


Bowie foi "extremamente importante em vários períodos da minha vida", explica o cineasta. "Antes de mais, quando o descobri tinha 11 ou 12 anos, durante a puberdade, e foi fundamental numa altura em que queria ser eu e não os meus pais".

Conheceu-o pessoalmente nos anos 2000 para um projecto. "Não era o momento para ele, graças a Deus, porque eu ainda não estava onde devia estar para um filme sobre Bowie (risos)". Quando o criador de Ziggy Stardust morreu, Morgen estava pronto e preparado para dinamitar as convenções dos documentários sobre estrelas rock.

Um dos responsáveis pela herança de Bowie confidenciou-lhe então "que David tinha recolhido e preservado o seu arquivo". "Não para o trabalho tradicional, mas mais para um mergulho imersivo como o que eu pretendia".

A seguir, Morgen (agora com 53 anos) teve um ataque cardíaco e ficou em coma. Recuperado, "A filosofia de Bowie, palavras, arte" ressoou nele mais do que nunca.

"Morte, reencarnação, Bowie falou disso desde o início, como na canção 'Silly Boy Blue'", insiste. Tira o telefone e toca 20 segundos da canção, traçando um paralelo com a frase "Blackstar", a faixa título do último álbum do britânico, que também fala da morte e do legado através da criação.


Contradições


"Moonage Daydream" (uma faixa de "The Rise And Fall Of Ziggy Stardust...") centra-se assim nos apetites de vida de um artista com mil rostos. A parte mais interessante não é a secção de abertura com as considerações do músico sobre espaço e tempo.

O documentário acerta em cheio no alvo quando vemos Bowie cortar pedaços no papel com frases para as montar aleatoriamente e dar corpo às suas canções, algo que muitas vezes tinha sido escrito mas nunca mostrado.

Podia-se temer uma hagiografia controlada pelos detentores dos direitos. Mas as imagens de um Bowie emaciado a cheirar constantemente cocaína testemunham também os períodos sombrios e os seus vícios. E a sequência com uma famosa empresa de refrigerantes, patrocinadora de uma digressão que deu origem a um célebre anúncio com Bowie e Tina Turner, coloca o artista perante as suas contradições entre arte e dinheiro.

Por outro lado, passagens marcantes de "Moonage Daydream" permitem também apreciar o talento de Bowie como pintor e reconhecer um amigo íntumo, Iggy Pop, nas suas telas, ou ver imagens de Jeff Beck, guitarrista dos Yardbirds, a tocar ao lado de Bowie, no palco.

por

Recomendamos: Veja mais Artigos de Cannes 2022