"Moonlight", uma epopeia intimista

É um dos principais concorrentes aos Oscars, com oito nomeações (incluindo melhor filme do ano): "Moonlight", de Barry Jenkins, consegue a proeza de retratar uma comunidade afro-americana a partir das convulsões de uma dramática história individual.

Moonlight, uma epopeia intimista
Alex Hibbert e Jaden Piner: uma história da comunidade afro-americana de Miami
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 Moonlight, uma epopeia intimista
Moonlight Uma história de ligações humanas e autodescoberta, MOONLIGHT é o relato da vida de um jovem afro-americano desde a sua infância até à idade adulta, acompanhando a sua luta por encontrar um lugar no mundo à medida que cresce num bairro empobrecido de Miami. MOONLIGHT é um retrato vital da vida contemporânea da comunidade afro-americana ao mesmo tempo que é uma meditação intensamente pessoal sobre ...

Razões históricas antigas — prolongadas em recentes batalhas ideológicas — têm feito com que a representação dos afro-americanos no cinema de Hollywood seja uma ferida sempre em aberto (que, evidentemente, envolve complexas ramificações que não cabem nestas linhas). Digamos, por isso, para simplificar que "Moonlight" é um filme centrado numa comunidade negra de Miami que vale, não por qualquer simbologia mais ou menos panfletária, mas sim por um tocante humanismo que se configura num prodigioso trabalho cinematográfico.

Curiosamente, o primeiro grande desafio que o filme envolve decorre da sua divisão em três partes claramente identificadas, seguindo a figura central, de seu nome Chiron, na infância, adolescência e idade adulta. Ou seja: como representar esse arco temporal sem "perder" a personagem nas suas transformações físicas? A resposta do filme é a mais básica, mas também a mais difícil: Chiron surge-nos através de três actores, todos eles magníficos — são eles, sucessivamente, Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes.

A história de Chiron vai adquirindo uma dimensão de epopeia individual e intimista em que, afinal, ecoam os dramas de toda uma comunidade, desde a degradação das habitações até à circulação da droga — daí, aliás, a importância da figura paterna de Juan (Mahershala Ali, nomeado para o Oscar de melhor actor secundário). Mais do que isso: com um pano de fundo tão drástico, "Moonlight" consegue a proeza de apresentar a descoberta da sexualidade por Chiron como um acontecimento cuja angústia não exclui, antes parece ampliar, uma delicada dimensão poética.

Barry Jenkins, argumentista e realizador, construiu o seu filme a partir da peça "In Moonlight Black Boys Look Blue", de Tarell Alvin McCraney. E uma das mais espantosas componentes do seu trabalho nasce da capacidade de encenar Chiron e os que o rodeiam contornando clichés (brancos ou negros) e preservando a fascinante singularidade de cada gesto, cada acção, cada emoção.

"Moonlight" é, afinal, um filme que discute e supera as eventuais limitações de um clássico dispositivo "psicológico", fazendo-nos ver também que qualquer discussão em torno da representação dos afro-americanos está muito longe de ser uma mera contabilização de "presenças" ou "ausências"... Com as suas oito nomeações para os Oscars (incluindo melhor filme do ano), esperemos que a sua inteligência não seja banalizada pelo sentido dominante dos ventos mediáticos.

Crítica de João Lopes
publicado 18:49 - 02 fevereiro '17

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