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Na intimidade do futebol

"O Futebol", de Sérgio Oksman, é um documentário em que o desporto serve de porta de entrada num universo familiar — esteve no DocLisboa de 2015 e chega agora ao circuito comercial português.

Na intimidade do futebol
A ver o Mundial de Futebol de 2014 — um documentário em tom familiar
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Como fazer um documentário sobre o futebol? Talvez fazendo um documentário sobre outra coisa... Será essa a maneira mais sugestiva de descrever aquilo que acontece em "O Futebol", do brasileiro Sérgio Oksman. Isto porque o seu filme, embora tendo em pano de fundo o Mundial 2014, no Brasil, é menos sobre o jogo jogado e mais sobre uma dimensão de tocante intimidade.

Os espectadores do Curtas de Vila do Conde conhecerão Oksman através de "Uma História para os Modlins", objecto francamente diferente, enraizado num gosto falsamente naturalista, apostado mesmo em explorar os efeitos mais artificiosos da imagem. No caso de "O Futebol", o cineasta parte de um evento singular: afastado do pai há cerca de duas décadas, propõe-lhe que se reencontrem durante o Verão de 2014 e que acompanhem juntos o Mundial...


O filme constrói-se através de um assinalável pudor. De facto, vamos compreendendo que, mesmo quando o futebol funciona como primeiro dispositivo de comunicação pai/filho, aquilo que está em jogo envolve as memórias — e também os silêncios — de toda uma odisseia familiar. Por um lado, somos sensíveis ao confessionalismo do projecto; por outro lado, dir-se-ia que Oksman se ilude com a ideia de que as suas memórias familiares são suficientes para dar corpo, automaticamente, a uma narrativa cinematográfica (documental ou não).

Eis um filme que faz sentido descobrir nas salas, até porque, independentemente dos seus resultados, relança, ainda que de forma discreta, a nossa relação com a produção brasileira. Em todo o caso, é pena que tal aconteça com quase dois anos de atraso: "O Futebol", importa lembrar, esteve na competição do DocLisboa, em 2015 — a actualidade do mercado não será uma "obrigação", mas é um trunfo que, o mais possível, importa preservar.

Crítica de João Lopes
publicado 23:10 - 06 setembro '17

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