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Na retaguarda da Grande Guerra

Ainda que com resultados algo convencionais, o novo filme de Xavier Beauvois aponta para a revalorização de uma tradição narrativa eminentemente francesa: "As Guardiãs" apresenta uma visão pouco habitual da Primeira Guerra Mundial.

Na retaguarda da Grande Guerra
Nathalie Baye e Laura Smet: mãe e filha interpretam mãe e filha
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Xavier Beauvois (n. 1967) é um actor francês que continua a interessar-se pelas convulsões mais íntimas da história — e a tratá-las enquanto realizador. Assim aconteceu em "Dos Homens e dos Deuses" (2010), sobre uma pequena comunidade de monges numa zona da Argélia ameaçada por fundamentalistas religiosos; assim volta a acontecer através de "As Guardiãs", um inesperado filme de guerra.

E inesperado porque, de facto, a tradição mais forte faz com que o chamado filme de guerra seja, predominantemente, sobre a Segunda Guerra Mundial. Ora, neste caso, trata-se de recuar ao primeiro conflito mundial, a Grande Guerra 1914-18. Mais do que isso: em vez de uma evocação da frente de combate, Beauvois filma, literalmente, a retaguarda da vida rural — e nos campos quem ficou a assumir as principais tarefas de cultivo e sobrevivência foram as mulheres.


É pena que o filme nunca consiga superar um registo basicamente académico, construindo a sua narrativa como um registo de quadros mais ou menos "demonstrativos" de tão difíceis condições de existência, mesmo se importa valorizar a sua capacidade de tratar as componentes paisagísticas de modo a conferir-lhes um peso dramático específico — com destaque obrigatório para a direcção fotográfica de Caroline Champetier.

Laura Smet, filha de Nathalie Baye e Johnny Hallyday, contracena com a própria mãe na composição de um par mãe/filha em que, por assim dizer, se projectam as convulsões de um tempo que abalou, necessariamente, modos de vida, valores individuais e colectivos. Ainda que com resultados algo convencionais, "As Guardiãs" aponta, afinal, para um património cinematográfico francês que, como se prova, pode ser revisitado e revalorizado.

Crítica de João Lopes actualizado às 20:26 - 13 junho '18
publicado 00:29 - 09 junho '18

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