Nanni Moretti filma a chegada da morte
Nanni Moretti e Margherita Buy — a história de dois irmãos marcados pela doença da mãe

Cannes 2015  

Nanni Moretti filma a chegada da morte

Nanni Moretti traz a Cannes o seu filme mais recente: "Mia Madre" é a crónica de dois irmãos confrontados com a gravíssima doença da mãe — Margherita Buy e o próprio Moretti interpretam os papéis principais.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 Nanni Moretti filma a chegada da morte
Minha Mãe Margherita é uma realizadora em plena rodagem de um filme cujo protagonista é um famoso actor americano. Às questões artísticas que enfrenta, juntam-se angústias de ordem pessoal: a sua mãe encontra-se no hospital e a sua filha em plena crise adolescente. O seu irmão, por sua vez mantém-se como uma constante na sua vida. Conseguirá Margherita estar à altura de todos os problemas familiares e ...
Média Cinemax:
4.188

Há em torno de Nanni Moretti um "efeito-Moretti". Que é como quem diz: a imagem de marca que os media dele criaram envolve a expectativa de coisas mais ou menos "rebeldes" e "provocatórias". De tal modo que o cineasta italiano é o primeiro a resistir a tal "efeito", como se prova no seu "Mia Madre", apresentado na competição de Cannes.

Assim, a personagem central de "Mia Madre" é uma cineasta, Margherita (Margherita Buy), que, muito à maneira de Moretti, não gosta dos lugares-comuns com que alguns jornalistas a bombardeiam... Mas atenção, tal pontuação irónica, reforçada pela presença de John Turturro (interpretando a estrela convidada do filme dentro do filme), é apenas isso mesmo: uma forma de marcar o ritmo de um filme de admirável subtileza formal e humana que, em boa verdade, remete para um tema bem diferente. A saber: a aceitação da morte.

O próprio Moretti interpreta o irmão de Margherita — ambos vivem condicionados pela situação da mãe, uma velha professora de latim que está no hospital, enfrentando uma doença muito mais grave do que imagina. "Mia Madre" é, assim, a história da progressiva certeza da chegada da morte, encenada através das atribulações do quotidiano, desde as dificuldades do filme de Margherita até à decisão do irmão de abandonar o seu emprego, passando pelas rotinas da filha de Margherita e a sua aprendizagem do... latim.

Podemos, evidentemente, aproximar este filme de outros momentos da obra de Moretti em que o confronto com a ameaça da doença ou a brusquidão da morte é fundamental — pensemos, por exemplo, em "Querido Diário" (1993) ou "O Quarto do Filho" (2001). Seja como for, "Mia Madre" é uma extraordinária proeza narrativa e simbólica, feita com a aparente ligeireza de uma crónica do dia a dia — que, obviamente, também é.

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publicado 22:20 - 16 maio '15

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