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Nas paisagens do "western"

O "western" continua vivo no interior da produção americana, servindo, neste caso, para encenar um drama muito contemporâneo: "Custe o que Custar" é um "thriller" dos nossos dias que exibe as marcas temáticas e simbólicas de algumas aventuras do velho Oeste.

Nas paisagens do western
Ben Foster e Chris Pine — face à imensidão do Texas
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 Nas paisagens do western
Custe o Que Custar HELL OR HIGH WATER – CUSTE O QUE CUSTAR! conta a história de dois irmãos no Oeste americano: Toby (Chris Pine), um pai divorciado que tenta assegurar uma vida melhor para o filho, e Tanner (Ben Foster), um irascível ex-presidiário com tendências violentas. Juntos, decidem assaltar sucursal atrás de sucursal do banco que está a penhorar a propriedade da sua família. Com este esquema, eles querem ...

Se nos lembrarmos de um filme como "The Getaway/Tiro de Escape" (1972), de Sam Peckinpah, com Ali MacGraw e Steve McQueen, podemos começar por caracterizar a longa (por vezes, fascinante) agonia temática e simbólica do "western". Que é como quem diz: o "western" deixou de ser a epopeia de conquista do Oeste americano, para passar a existir como matriz para outros dramas, agora situados no nosso presente.

"Custe o que Custar" (título original: "Hell or High Water") é um descendente directo dessa lógica. Curiosamente realizado por um escocês, David Mackenzie, trata-se de uma narrativa que se desenvolve como um "thriller" de investigação e perseguição, embora conservando as paisagens, físicas e metafóricas, do "western".

Os dois ladrões (Chris Pine e Ben Foster) perseguidos pelo xerife (Jeff Bridges), devidamente apoiado pelo seu ajudante de ascendência índia (Gil Birmingham), surgem, assim, como figuras de um presente permanentemente assombrado pelos valores e códigos das aventuras do velho Oeste — e tanto mais quanto, paradoxalmente, nestes austeros cenários do Texas, detectamos as marcas de muitas formas de decomposição social e económica.

Combinando um elaborado sentido de contemplação com a arte de sugerir as ambiguidades dos comportamentos, eis um filme que sabe situar-se face a um património riquíssimo, sem cair em qualquer facilidade meramente copista. Não será, por certo, através de "Custe o que Custar" que o "western" voltará a ser um género florescente no interior da máquina de Hollywood — o certo é que face a alguns super-heróis enredados nos seus artifícios digitais, é salutar encontrar este gosto pelas pessoas e pelos seus lugares.

Crítica de João Lopes
publicado 22:39 - 07 dezembro '16

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