Estreia: TERRA DE NINGUÉM  

No Confessionário de Salomé Lamas

Um homem anónimo conta à realizadora Salomé Lamas episódios de um passado de sombra e mortes. Esse homem é Paulo de Figueiredo, engenheiro eletrotécnico, comando militar em África, mercenário e assassino contratado ao serviço de vários governos e revoluções.

No Confessionário de Salomé Lamas
Paulo, comando, mercenário, assassino a soldo.
Subscrição das suas críticas
14.505

A realizadora Salomé Lamas encontrou Paulo através de uma equipa que faz trabalho de apoio aos sem abrigo, e chegou às histórias deste homem numa relação que se desenvolveu ao longo de um ano. O filme mostra apenas uma parte desta conversa, sem nunca dar espaço às perguntas da realizadora, mas concentrando-se apenas nas respostas, que são retratos da vida de Paulo, que se cruza com outras histórias com H grande.

Paulo relembra os temps de comando na Guerra Colonial em Moçambique e Angola, de mercenário da CIA em El Salvador, e de assassino a soldo da GAL (Grupos Antiterroristas de Liberación), para aniquilar membros da ETA.

O discurso é muitas vezes radical, com referência aos pretos em África que saltavam como macacos, ou os troféus de orelhas, mãos ou dedos, que gostava de exibir no jipe quando chegava a uma sanzala, para que ficasse claro quem tinha o poder e quem mandava. Paulo admite sadismo nos tempos de comando em África, e também o vício do cheiro a sangue e pólvora.

No percurso deste homem que prestava contas sobre as mortes, há espaço para uma estranha moral, quando afirma que "nunca eliminou pessoas em condições, pessoas que se possam chamar pessoas, mas apenas os não prestam" Mais à frente irá contar que o preço por cada Etarra morto era de 10 milhões de pesetas, ou de como a profissão que teve é um trabalho, uma rotina igual à de ir para o escritório das 9h00 às 17h00.

Salomé Lamas tem nas mãos um testemunho difícil, contado na primeira pessoa, sobre factos que se relacionam com a história política em Portugal e em outros países. Factos que não pode comprovar, mas talvez nem interesse.

O que retém a atenção de quem vê, é aquele homem de 66 anos, que partilha vivências que só imaginamos em personagens do cinema, e em histórias de ficção, e que nos suscita muitas perguntas. Paulo é o senhor da "Terra de Ninguém", onde a moral se perde de forma desconcertante, entre o que escutamos e o que vemos.

Em 2012, o filme recebeu qautro prémios no Doc Lisboa, incluindo o de melhor longa metragem portuguesa e melhor primeira obra. Salomé Lamas já tem outros filmes no currículo, mas ainda não chegou aos 30 anos de idade.

Por isso, "Terra de Ninguém", assume também a expressão de uma ousadia, e transforma-se num exemplo de maturidade, de um olhar que ainda está a ganhar experiência mas que não se perde nas inquietações que a moral pode suscitar.

Crítica de Lara Marques Pereira
publicado 19:49 - 28 novembro '13

Recomendamos: Veja mais Críticas de Lara Marques Pereira