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Novas notícias do velho Oeste

Subitamente, um "western" que se define como legítimo herdeiro de uma certa visão crítica da expansão para Oeste ancorada no cinema dos anos 60/70 — a realização de Paul Greengrass mostra que é possível revisitar a história sem ceder às convenções da nostalgia.

Novas notícias do velho Oeste
Tom Hanks a ler as "notícias do mundo": regressando à dimensão histórica do "western"
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E se o "western" estivesse a regressar? Produzido e difundido pela Netflix, "Notícias do Mundo" parece justificar o relançamento de tal pergunta. Em qualquer caso, tal como em relação ao género musical, vale a pena lembrar a mais rudimentar evidência: há muito que o "western" deixou de pertencer às opções correntes dos estúdios americanos.

Ainda assim, a situação apresenta-se difusa, quanto mais não seja porque esta nova realização de Paul Greengrass se define como um objecto sugestivamente "impuro": a sua produção tem a chancela da Netflix, mas também da Universal, uma das "majors" de Hollywood.

Baseado no romance homónimo de Paulette Jiles, "Notícias do Mundo" remete-nos, não para uma ideia abstracta do "western", antes para o período crítico (e de auto-crítica) das décadas de 1960/70 em que diversos cineastas — a começar por Sam Peckinpah — contribuiram para a elaboração de uma nova arquitectura narrativa em torno do velho Oeste. Neste caso, tudo acontece em torno de um ex-militar da Confederação dos estados do Sul que, em 1870, cinco anos depois do fim da Guerra Civil, ganha a vida, de cidade em cidade, a ler as notícias do mundo.


Tom Hanks interpreta essa personagem com a contenção e a subtileza de quem sabe que, para lá do seu eventual valor simbólico, o que mais conta é a preservação da sua dimensão individual e irredutível. E tanto mais quanto toda a sua história pessoal vai ser abalada pelo envolvimento com uma criança que foi raptada e viveu cerca de seis anos com o povo Kiowa...

Helena Zengel, actualmente com 12 anos, é brilhante na composição dessa criança colocada numa encruzilhada que, em última instância, define os tempos incertos da acção: entre a pesada herança da guerra e a diáspora forçada dos índios, ela, tal como o militar sem exército, existe como peão vulnerável de um complexo xadrez político.

Demarcando-se da sua própria retórica "visual", apurada (e esgotada) com os filmes da série 'Jason Bourne' (Matt Damon), Greengrass faz um filme de depurado dramatismo, devolvendo ao "western" a sua dimensão primordial de painel histórico. Sem nostalgias forçadas, "Notícias do Mundo" acaba por ser uma demonstração insólita e sedutora da estranha vitalidade do "western".

Crítica de João Lopes
publicado 01:21 - 15 fevereiro '21

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