Estreias  

O cinema de Wenders através do teatro de Handke

Quase trinta anos depois de "As Asas do Desejo", Wim Wenders volta a trabalhar com as palavras de Peter Handke, mais precisamente com a sua peça "Os Belos Dias de Aranjuez": grande teatro, esplendoroso cinema — e em 3D!

O cinema de Wenders através do teatro de Handke
Nick Cave no universo de Wenders — interpretando a canção "Into My Arms"
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 O cinema de Wenders através do teatro de Handke
Os Belos Dias de Aranjuez Um belo dia de Verão. Um jardim. Um terraço. Uma mulher e um homem debaixo das árvores, com uma suave brisa de Verão. Ao longe, na vasta planície, a silhueta de Paris. Uma conversa tem início: perguntas e respostas entre a mulher e o homem. Fala-se de experiências sexuais, infância, memórias, a essência do Verão e a diferença entre homens e mulheres, fala-se da perspectiva feminina e da ...

Um dos aspectos mais insólitos da "sociedade de informação" em que vivemos tem a ver com o facto de, com frequência, a informação não passar...

O cinema a três dimensões, por exemplo. Quase todos o associam apenas às maiores produções de Hollywood, ignorando que algumas das experiências mais extremas com o 3D pertencem a cineastas europeus como Wim Wenders ("Pina", 2011) ou Jean-Luc Godard ("Adeus à Linguagem", 2014).

Wenders, justamente, aí está de novo com um esplendoroso filme "tridimensional", "Os Belos Dias de Aranjuez", a partir de um texto admirável de Peter Handke (ed. Documenta, tradução de Maria Manuel Viana) — uma peça de teatro transfigurada numa verdadeira cerimónia cinematográfica, à descoberta da transparência original das palavras.

É disso mesmo que se trata: saber de que modo, ou até que ponto, as palavras que trocamos são elementos vitais de uma arquitectura humana, recusando qualquer utilização meramente instrumental dos seus significados. Reda Kateb e Sophie Semin interpretam um "homem" e uma "mulher" (de acordo com a definição abstracta proposta pelo próprio Handke) que, falando, redescobrem a possibilidade do amor e a transcendência que o desejo pode envolver.

Nesta paisagem, o 3D não é um "gadget". Funciona antes como elemento profundamente paradoxal, não exactamente favorecendo o artifício pelo artifício, mas redobrando os índices realistas — mesmo quando assistimos à inusitada e poética aparição de Nick Cave. Percebemos, enfim, que a relação de Wenders com a escrita de Handke se vem diversificando e enriquecendo desde os tempos heróicos de "As Asas do Desejo" (1987): Quando a criança era uma criança / Não sabia que era uma criança / Tudo tinha alma / E todas as almas eram uma só...

Crítica de João Lopes
publicado 16:27 - 16 dezembro '16

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