O cinema dentro do teatro
"Vous N'Avez Encore Rien Vu", de Alain Resnais: o cinema e a utopia do teatro

Cannes 2012  

O cinema dentro do teatro

Foi um dos mestres da Nova Vaga francesa, continua activo e com uma admirável capacidade de criação: Alain Resnais está na competição de Cannes com o magnífico "Vous N'Avez Encore Rien Vu".

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 O cinema dentro do teatro
Vous N`Avez Encore Rien Vu O célebre dramaturgo Antoine d'Anthac reúne todos os amigos que apareceram ao longo dos anos na sua peça "Eurídice". Estes atores assistem a uma gravação do trabalho realizado por uma jovem companhia de teatro, La Compagnie de la Colombe. O amor, a vida, a morte e o amor após a morte ainda têm lugar num palco de teatro? Cabe a eles decidir. E as surpresas ainda só agora começaram...

É bem verdade que a obra dos grandes cineastas tem sempre uma parte de obsessão. E sobretudo daquilo que, na obsessão, envolve repetição. No caso de Alain Resnais, o nome dessa obsessão poderá ser a "palavra" ou, se preferirem, o "teatro". Desde os tempos heróicos de "Hiroshima Meu Amor" (1959) e "O Último Ano em Marienbad" (1961), ele filma as evidências e ilusões da teatralidade das relações humanas.

No caso de "Vous N'Avez Enconre Rien Vu" (à letra: "Vocês ainda não viram nada"), Resnais vai mesmo directamente ao teatro, à palavra teatral. Com argumento de Laurent Herbiet e Aléx Reval, esta é uma revisitação de "Eurídice" e "Cher Antoine ou l'Amour Raté", duas peças de Jean Anouilh (1910-1987). Em cena estão os efeitos de um voto formulado num testamento: um director teatral deixou um filme de uma das suas encenações para ser visto e avaliado pelos seus actores de eleição...

Desde o princípio, Resnais sublinha que esta visão do cinema dentro do teatro, ou do teatro a contaminar o cinema, é a sua casa. Assim, os actores mobilizados pelo encenador são os actores do próprio Resnais, alguns deles habitués do seu cinema: Sabine Azéma, Pierre Arditi, Mathieu Amalric, etc., todos eles são identificados pelo próprio nome.

Na prática, tudo se passa como se Resnais visse o artifício do palco como um instrumento da mais remota verdade do cinema. A pouco e pouco, os actores vão sendo contaminados pela encenação a que assistem e, em boa verdade, o filme de Resnais passa-se numa espécie de espaço utópico em que cada ser pode coexistir com a sua máscara, a ponto de se revelar através dela.

"Vous N'Avez Enconre Rien Vu" é um grande filme dos tempos que vivemos (e também para os tempos que vivemos): uma visão das artes de representação como inerentes ao género humano, muito para lá da "transparência" que, todos os dias, a televisão nos tenta vender. Tendo em conta que Resnais nunca ganhou a Palma de Ouro, esta seria (ou será) uma oportunidade carregada de simbolismo.

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publicado 00:23 - 23 maio '12

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