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O cinema face às memórias de Anne Frank

É pena que o formalismo de "#Anne Frank - Vidas Paralelas" retire força a um projecto cujas matérias históricas, em qualquer caso, importa valorizar — trata-se de relembrar o Holocausto através do "Diário" de Anne Frank.

O cinema face às memórias de Anne Frank
O "Diário" de Anne Frank é um dos livros mais lidos em todo o mundo
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O título exacto não é "Anne Frank - Vidas Paralelas", mas sim "#Anne Frank - Vidas Paralelas". Porquê? Porque a evocação de Anne Frank (1929-1945), jovem de origem judaica que morreu no campo de concentração de Bergen Belsen, começa pela presença de uma personagem (também jovem, também adolescente) que visita os locais da história trágica de Anne Frank, utilizando o seu telemóvel para... escrever mensagens com diversos hashtags [#] relacionados com a Segunda Guerra Mundial, o nazismo e o Holocausto.

De facto, tal personagem não passa de uma excrescência retórica que só contribui para diminuir a importância histórica e o impacto emocional das memórias que o filme convoca — dir-se-ia que a dupla italiana de realizadoras, Sabina Fedeli/Anna Migotto, confundiu o rigor formal com a exibição formalista.


As matérias essenciais do filme são, afinal, o célebre "Diário" de Anne Frank, escrito em 1942-44, quando a família se refugiava em Amsterdão, e os depoimentos de cinco mulheres, actualmente com cerca de 90 anos, que também foram enviadas pelos nazis para campos de concentração.

É pena que o enquadramento artificioso da personagem "imaginária" que escreve no seu telemóvel retire intensidade ao que, em qualquer caso, importa registar: as palavras de Anne Frank, lidas pela actriz inglesa Helen Mirren, mostrando a sua perplexidade e angústia face aos crimes da máquina de guerra de Adolf Hitler, e as memórias dessas cinco mulheres (obviamente da mesma geração de Anne Frank), garantindo que o passado não pode ser rasurado do conhecimento humano.

Crítica de João Lopes
publicado 22:53 - 26 setembro '20

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