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O drama e o melodrama de Paméla

A personagem central de "Todos os Sonhos do Mundo" é uma portuguesa de segunda geração, nascida em França, que parece acreditar que "Portugal" é o nome de uma utopia parada no tempo — o filme de Laurence Ferreira Barbosa narra a descoberta da realidade para além dos sonhos.

O drama e o melodrama de Paméla
Paméla Constantino Ramos — uma presença capaz de mobilizar a câmara e os nossos olhares
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 O drama e o melodrama de Paméla
Todos os Sonhos do Mundo Paméla é uma jovem portuguesa da segunda geração, nascida em França. No emaranhado das suas contradições, dos seus insucessos e do amor absoluto pela sua família, sente-se perdida e parece estar incapacitada de imaginar como poderia viver a sua vida... Sobretudo porque só gosta de tocar piano e patinar no gelo. Vai, contudo, desbravar o seu próprio caminho entre França e Portugal.

O título "Todos os Sonhos do Mundo" envolve qualquer coisa de irónico — numa dinâmica em que a ironia arrasta uma sentida ternura. Isto porque o novo filme de Laurence Ferreira Barbosa, cineasta francesa de ascendência portuguesa, se centra na personagem de Paméla (Paméla Constantino Ramos), uma jovem que experimenta todos os sonhos do (seu) mundo como se neles encontrasse uma ordem ideal para as pessoas e as coisas...

Acontece que nada é tão simples e Paméla vai perceber que o seu sonho — de nome: Portugal — existe, afinal, num universo incomparavelmente mais contrastado em que importa não encarar a felicidade como um dado adquirida. Ela é, afinal, uma portuguesa de segunda geração, nascida em França, que todos os anos vem passar férias à aldeia de onde é originária a sua família; dir-se-ia que, com desarmamente naturalidade, acredita nos clichés mais pitorescos da própria emigração: o campo redentor, as festas ingénuas, as relações nostálgicas, etc.

Sem nunca perder de vista os sinais de um realismo estrito (a que quase apetece chamar documental), Laurence Ferreira Barbosa coloca em cena as diferenças, por vezes as difíceis contradições, entre gerações. Para procurar o lugar de uma inocência primordial? Não, nada disso, antes para nos mostrar que não se trata de traçar uma fronteira entre "inocentes" e "culpados", mas sim reconhecer que o destino de Paméla não se vai decidir através da dicotomia "Portugal/França".

Reagindo aos lugares-comuns que, não poucas vezes, assombram este tipo de histórias, "Todos os Sonhos do Mundo" possui as vantagens (e também os limites) de um exercício dramático, tendencialmente melodramático, em que podemos descobrir cada ser à procura da sua verdade mais íntima. Nesse processo, o trabalho com os actores adquire um papel primordial, mesmo se as desigualdades de talento são evidentes — o destaque vai, necessariamente, para Paméla Constantino Ramos, ora misteriosa, ora transparente, resistindo a ser transformada em "modelo" ou "símbolo".

Crítica de João Lopes
publicado 23:29 - 26 outubro '17

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