O fado português que se ouve em Hollywood: entre Camilo e Saramago
Campanha internacional de "Mistérios de Lisboa" com elogios rasgados ao filme.

Cinema Português  

O fado português que se ouve em Hollywood: entre Camilo e Saramago

O cinema português está a ter este ano o maior reconhecimento de sempre na temporada norte-americana de prémios através de "Mistérios de Lisboa" e "José e Pilar". E até mesmo o fado já está na lista para concorrer à nomeação de melhor canção.

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"Mistérios de Lisboa" vs. "José e Pilar"

Numa altura em "José e Pilar" tenta chegar à lista restrita dos cinco filmes  nomeados para o Oscar de melhor filme estrangeiro é o drama de época "Mistérios de Lisboa" que recolhe maior projecção a nivel internacional. Uma aposta do produtor Paulo Branco que convidou Raul Ruiz para adaptar ao cinema um romance de Camilo Castelo Branco.

O projecto é o maior empreendimento da produção nacional. Desde que estreou em 2010 tem angariado prémios e elogios da crítica especializada. Está referenciado na imprensa de todo o mundo, nas listas dos 10 melhores filmes do ano, e há alguns dias foi distinguido pela Associação de Imprensa Internacional nos Estados Unidos, com o Satellite Award para melhor filme estrangeiro.

Tal nunca sucedeu com um filme de produção portuguesa. Paulo Branco sublinha ainda o valor das nomeações de Isabel Branco, na categoria de melhor guarda-roupa e direção artística, numa lista reduzida que deixou de fora grandes produções norte-americanas.

As nomeações que aconteceram nestas categorias técnicas para os Satelite Awards podem repetir-se nos Oscars. "Mistérios de Lisboa" está na lista de 265 longas metragens qualificadas para concorrer aos vários Oscars, embora sem grandes expectativas por parte do produtor. O filme foi colocado à consideração da Academia pelo distribuidor nos Estados Unidos, mas não beneficia de uma campanha promocional capaz de competir com o marketing agressivo dos grandes estúdios que não olham a despesas para promover os seus filmes.

Paulo Branco desdramatiza ao dizer que muitas obras-primas não passaram sequer pelos Oscars. E ao mesmo tempo lamenta que o filme não tenha sido pré selecionado pelo Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA) para representar Portugal no processo de candidatura ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Perdeu-se uma oportunidade, diz Paulo Branco, confiante que "Mistérios de Lisboa" não teria qualquer dificuldade em ficar na lista final de nomeados e seria vencedor da categoria.

É uma certeza que nunca será possível comprovar, diz António Pedro Vasconcelos, presidente da ARCA, a Associação de Realizadores de Cinema e Audiovisual, que integrou a comissão que escolheu o representante português nesta categoria. As restantes organizações representadas foram a recente Academia de Cinema, a Associação de Argumentistas e Dramaturgos, a Associação Portuguesa de Realizadores, a Associação Portuguesa de Imagem Portuguesa, Cinema e Televisão, e a Associação de Produtores de Cinema.

A escolha da comissão foi quase unânime e recaiu sobre o documentário "José e Pilar" de Miguel Gonçalves Mendes. António Pedro Vasconcelos foi a excepção e em nome da ARCA votou em "Mistérios de Lisboa". Hoje reconhece que o documentário que acompanha uma parte da vida de José Saramago é consensual e merece uma carreira internacional.

Quanto a "Mistérios de Lisboa", o realizador que foi jurado, aponta duas desvantagens: a dupla orientação do projeto para cinema e televisão e a longa duração da versão de cinema, que supera as quatro horas.

"José e Pilar": superar os obstáculos 

"José e Pilar" acaba de ganhar mais uma nomeação na lista de filme estrangeiro no festival de Palm Springs, em janeiro. O realizador Miguel Gonçalves Mendes vai estar presente juntamente com Pilar del Rio, a mulher de Saramago e protagonista do filme. É a estratégia para tentar compensar a falta de meios financeiros para realizar uma campanha nas ruas de Los Angeles.

O realizador admite que não consegue competir com a dimensão de outras produções, mas sabe também que superou vários obstáculos desde que iniciou este documentário. O projecto ganhou a aprovação de José Saramago, e depois os apoios da produtora de Pedro Almodóvar e do brasileiro Fernando Meirelles.

O cineasta português não tem razões para acreditar que tudo é possível. Fé parece ser a palavra de ordem, ainda para mais com a possibilidade de colocar nos Oscares a mais recente bandeira do orgulho nacional. O fado "Já Não Estar", de Camané, surge entre as 39 canções pré-selecionadas na categoria de melhor canção, uma selecção que costuma ser dominada pelas produções de animação dos grandes estúdios.

Será que vai ser possível ouvir um fado na maior noite de cinema norte-americana?

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