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O moderno que é clássico

Foi há 25 anos que surgiu "O Rei Leão", ainda com todas as marcas dos tradicionais desenhos animados. Agora, a nova versão, transfere o espectáculo para o universo digital, mas o que persiste é o gosto pelas formas mais clássicas do imaginário infantil.

O moderno que é clássico
O novo Rei Leão tenta compreender a complexidade do mundo à sua volta...
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 O moderno que é clássico
O Rei Leão Na savana africana, nasce um futuro rei. Simba idolatra o pai, o rei Mufasa, e leva a sério o seu próprio destino real. Mas, nem todos no reino celebram a chegada da nova cria. Scar, irmão de Mufasa, e ex-herdeiro do trono, tem os seus próprios planos. A batalha pela Pedra do Reino é marcada pela traição, tragédia e drama, resultando no exílio de Simba. Com a ajuda de um curioso conjunto de novos ...

É provável que o leitor se recorde de uma discussão sobre os remakes e, em particular as "cópias" em cinema, a propósito do lançamento de "Psico", em 1998, com assinatura de Gus Van Sant: no essencial, o filme "repetia" o clássico homónimo de Alfred Hitchcock (datado de 1960), não apenas nas peripécias da história, mas na própria concepção do espaço e planificação — e não faltaram elogios (incluindo os meus, já agora) ao risco, algo desconcertante, do projecto.

Agora, face ao lançamento de "O Rei Leão", não deixa de ser desconcertante verificar que, nos EUA, tenha surgido toda uma linha de argumentação que aponta como negativo o facto de o novo filme de Jon Favreau "copiar" muitos elementos do original, realizado pela dupla Roger Allers/Rob Minkoff e lançado em 1994. Insólito, de facto, sobretudo tendo em conta que se trata de uma radical mudança de registo de encenação.

Estamos, afinal, perante a passagem da animação clássica — "O Rei Leão" de 1994 é ainda um desenho animado tradicional, embora já integrando alguns recursos computorizados — para um modelo de figuração eminentemente virtual. Dito de outro modo: o filme de Favreau, tal como "O Livro da Selva" (2016), que ele também dirigiu, é uma proeza dos mais sofisticados instrumentos digitais, recriando a saga do pequeno Simba através de um estilo a que, à falta de melhor, apetece chamar hiper-realismo.

Porque é disso que se trata, realmente. O que está a acontecer em alguns registos do espectáculo com chancela  dos estúdios Disney (não, por certo, nos cada vez mais formatados e monótonos filmes de super-heróis...) é a consagração de uma nova duplicidade expressiva e narrativa: por um lado, a produção de um objecto como "O Rei Leão" só é possível e concebível através de um aparato tecnológico genuinamente revolucionário; por outro lado, o seu "futurismo" consuma-se em nome de um metódico retorno ao gosto das histórias mais clássicas, de alguma maneira ligadas ao (também clássico) imaginário infantil.

Enfim, não esqueçamos que aquilo que aqui acontece nada tem a ver com a possibilidade (?) de, cena sim, cena não, destruir cidades digitais ou inventar (?) mais um aparato de luzes mais ou menos cintilantes com os actores a olhar, espantados (?), para o que posteriormente será colocado nas imagens pelos técnicos de efeitos especiais... "O Rei Leão" é um depurado conto familiar, quer dizer, sobre a própria consistência do espaço familiar e também uma sugestiva parábola sobre o poder e o seu labirinto moral — o Rei morreu, viva o Rei!

Crítica de João Lopes actualizado às 23:21 - 18 julho '19
publicado 23:19 - 18 julho '19

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