O racismo revisto por Spike Lee
John David Washington e Adam Driver — dois actores brilhantes filmados por Spike Lee

Cannes 2018  

O racismo revisto por Spike Lee

O racismo na sociedade americana continua a ser um tema fulcral do cinema de Spike Lee — com "Blackkklansman", em competição em Cannes, ele assina um dos seus filmes mais contundentes.

De uma maneira ou de outra, a 71ª edição do Festival de Cannes ficará assinalada como um evento atravessado pelas diversas componentes políticas, decorrentes das convulsões e combates que, desde as reivindicações sociais até aos conflitos bélicos, marcam o mundo contemporâneo. Provavelmente, nenhum filme será tão vibrante quanto "Blackkklansman", a nova realização de Spike Lee sobre Ron Stallworth, um detective da polícia de Colorado Springs que, em 1978, consegue infiltrar-se no Ku Klux Klan...

O arranque do filme tem qualquer coisa de caricato, à beira do burlesco — mas vai evoluir para zonas de tragédia. Acontece que a investigação do Ku Klux Klan por Stallworth se faz, em grande parte, por telefone, com ele a assumir um discurso violentamente racista contra os negros... Acontece que Stallworth é negro, sendo necessário "substituí-lo" por um branco, o seu colega Flip Zimmerman, quando se trata de participar nas reuniões da "Organização"...


Esta esquizofrenia dramática define, afinal, a moral da história segundo Spike Lee, conduzindo o filme, a pouco e pouco, para uma impressionante vibração emocional — no final, "Blackkklansman" integra mesmo imagens das agressões dos partidários da supremacia branca em 2017, incluindo ainda o discurso em que Donald Trump considerou que havia "boas pessoas" em "ambos os lados". Dito de outro modo: este é um filme que assume os artifícios da ficção para nos relançar na realidade muito crua do racismo na história (passado e presente) dos EUA.

"Blackkklansman" é um admirável objecto de cinema que prolonga a lógica de muitos outros filmes de Spike Lee, incluindo "Não Dês Bronca" (1989) ou "Verão Escaldante" (1999). A espantosa montagem, apostando num ritmo de crescente inquietação em que a intensidade da palavra nunca se desvanece, cria uma teia dramática em que cada cada personagem, mesmo quando adquire valor simbólico, se define sempre a partir da sua irredutibilidade humana — John David Washington e Adam Driver são brilhantes nos papéis de Ron e Flip, respectivamente.

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publicado 00:15 - 16 maio '18

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