O realismo que chega da Turquia
Luz e sombra do cinema de Ceylan: uma obsessao realista

"Once Upon a Time in Anatolya", de Nuri Bilge Ceylan  

O realismo que chega da Turquia

O cineasta turco Nuri Bilge Ceylan, presença regular em Cannes, esta de volta com "Once Upon a Time in Anatolia" — um dos momentos altos do festival.

Trailer/Cartaz/Sinopse:
 O realismo que chega da Turquia
Era Uma vez na Anatólia Keskin, Turquia. Um grupo de homens segue pelas estepes da Anatólia em busca de um corpo. Kenan (Firat Tanis), suspeito do crime, guia a caravana – composta por advogados, coveiros, polícias e um médico legista – numa longa e cansativa viagem até ao local onde diz ter sepultado o cadáver. Mas o álcool, acrescenta, deixou-o confuso. Ao amanhecer, depois de encontrado o lugar, a vítima é ...
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Vivemos tempos de uma cultura televisiva que, todos os dias, trata as imagens (e os sons) como se a sua percepçao fosse uma via automatica de "decifraçao" do mundo.

Ora, acontece que o mundo nao existe nessa candura de se oferecer às imagens de forma natural e transparente — alias, nao é verdade que as imagens fazem também parte do mundo?

O turco Nuri Bilge Ceylan é um cineasta de tais enredos, desse fascinio das imagens e também do trabalho arduo que elas exigem. Conhecemo-lo através de alguns filmes magnificos, entre os quais "Tres Macacos" (estreado entre nos no Natal de 2008). Agora, reencontramo-lo em Cannes com um objecto admiravel, construido a partir da mesma obsessao realista: "Once Upon a Time in Anatolia" (à letra: "Era uma Vez na Anatolia").

Até certo ponto, podemos defini-lo como uma cronica mais ou menos "policial", acompanhado o inquérito de um procurador em torno de um cadaver enterrado num campo absolutamente deserto. Mas nao é um filme de género: a sua singularidade vai mesmo escapando, ponto por ponto, a qualquer caracterizaçao tradicional, ja que Ceylan filma, justamente, a dificuldade das personagens (e também do espectador) de entender o que esta a acontecer — que forças determinam aqueles comportamentos e o que se oculta por detras das aparencias mais banais?

"Once Upon a Time in Anatolia" impoe-se como um exemplo muito vivo (mais um, depois do filme dos irmaos Dardenne, "Le Gamin au Vélo") dessa sensibilidade realista, exigente e metodica, que marca muitas areas do cinema contemporaneo, em particular no continente europeu — a partir da Turquia, Ceylan é, afinal, um nome decisivo de uma vanguarda que nao desiste da preservaçao de alguns nobres valores classicos.

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publicado 20:31 - 21 maio '11

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