O romanesco contra as telenovelas

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O romanesco contra as telenovelas

Um autor teatral à procura dos actores para uma nova peça: com "O Casamento a Três", Jacques Doillon continua a sua galeria de retratos das relações afectivas.

Autor desse filme único que é "Ponette" (1996) — sobre uma criança de 4 anos que, depois da morte da mãe, insiste que ela vai regressar... —, Jacques Doillon é um cineasta francês que tem trabalhado, sobretudo, com intrigas romanescas que tentam descrever os labirintos do desejo e do amor. É o caso do novo, irónico e saboroso "O Casamento a Três" (curiosamente, produzido por um português: Paulo Branco).

Tudo se passa a partir da reunião de um autor teatral com um pequeno grupo de personagens que o vão ajudar a fixar o elenco da sua próxima peça. Entre essas personagens há uma actriz, ex-mulher do autor — tanto basta para que cedo se compreenda que, entre o texto escrito e a vida vivida, há muitas relações subterrâneas, por vezes de desarmante ironia, que estão para além das "coincidências" factuais.

Dito de outro modo: "O Casamento a Três" é o contrário da vulgaridade telenovelesca, expondo as relações afectivas como um mapa complexo, porventura indecifrável, das pulsões humanas. Doillon reencontra, assim, uma nobre tradição francesa que vai de Jean Renoir a Jacques Rivette, passando por François Truffaut ou André Téchiné — afinal de contas, a moral da história é que, mesmo quando nos movemos na mais cândida espontaneidade, tudo é teatro.

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