O rosto de Mickey Rourke
Randy 'The Ram' Robinson, aliás, Mickey Rourke:
revisitando o Sonho Americano

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O rosto de Mickey Rourke

Mais do que um retrato dos bastidores do wrestling, o filme de Darren Aronofsky é o gesto de redenção de um actor

Como é que se envelhece assim? Quando colocamos esta pergunta face à presença de Mickey Rourke, em "O Wrestler", de Darren Aronovsky, é inevitável sentirmos a sua ambivalência: é uma pergunta suscitada pela personagem de Randy 'The Ram' Robinson, um profissional de wrestling que atingiu o limite das suas forças e da sua vontade; mas é também uma pergunta que envolve o próprio actor — afinal de contas, este come back surgiu também como o gesto de redenção do seu próprio destino profissional e humano.

Mais do que o retrato realista dos "bastidores" do wrestling, é isso que empresta ao filme de Aronovsky uma dimensão tão tocante. No rosto de Mickey Rourke — e também no seu corpo imenso e massacrado — lemos as marcas vagas, mas perturbantes, de uma vida de muitos sobressaltos e desilusões.

Nesta perspectiva, Aronovsky consegue a proeza de reavivar a mitologia do Sonho Americano, num registo em que a paixão se cruza com o desencanto. É um registo dos nossos dias e para os nossos dias — continuamos a precisar de heróis, mas tornámo-nos adultos e cépticos: já não acreditamos em destinos imaculados.

Por isso, Mickey Rourke faz o filme como uma dádiva de si — do seu corpo e da sua identidade. É uma oferta singela, mas radical, dirigida a qualquer coisa de imenso e maternal a que, à falta de melhor, daremos o nome antigo de cinema.

O WRESTLER - THE WRESTLER

De Darren Aronofsky com Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood; Drama; 115m; M/16; EUA; 2008


Ouça a crítica de João Lopes

 

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