O teatro, o cinema, a sua ilusão e o masoquismo dela
Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric: a partir de uma peça de David Ives e um livro de Sacher-Masoch

Cannes: LA VÉNUS À LA FOURRURE, Roman Polanski  

O teatro, o cinema, a sua ilusão e o masoquismo dela

Foi o último título da competição e também, por certo, um dos melhores: com "La Vénus à la Fourrure", Roman Polanski regressa a uma inspiração teatral para construir um espantoso exercício dramático apenas com dois actores.

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É bem provável que o facto de o novo filme de Roman Polanski, "La Vénus à la Fourrure", ter sido o último a surgir na competição de Cannes acabe por penalizá-lo de forma algo bizarra. Dir-se-ia que a "ponta final" da selecção oficial tende a ser encarada como uma simples necessidade de cumprir calendário, já que tudo ou quase tudo aconteceu na semana anterior...

Enfim, é uma mera suposição, algo desconcertada apenas porque seria uma pena que este "pequeno" filme, apenas com dois actores -- Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric -- fosse visto como um divertimento inconsequente...

Divertimento é-o, sem duvida, já que Polanski reinveste aqui o seu gosto pelo teatro (recorde-se o anterior "O Deus da Carnificina") e pelas suas máscaras. Acontece que, para ele, nunca se trata de um mero jogo do "gato" e do "rato", mas sim de um verdadeira desmontagem da ilusão (teatral, sem dúvida) que preside às relações masculino/feminino.

O ponto de partida está condensado no título. Ou seja: é o romance de Leopold von Sacher-Masoch, publicado em 1870, que serve de base a este encontro/duelo de um encenador e uma actriz, sendo o ponto de partida do argumento do filme não o livro, mas uma peça contemporânea de David Ives precisamente sobre a herança do autor a partir de cujo nome surgiu a palavra "masoquismo".

Teatro da crueldade, cinema da teatralidade das relaçõoes humanas: "La Vénus à la Fourrure" é tudo isso, encenado com uma concisão admirável, admiravelmente sustentada pelas excepcionais performances de Seigner e Amalric.

Por tudo isso, Polanski teve razão em demarcar-se, em Cannes, do cinema que confunde acção com ruído e acumulação de efeitos especiais -- sem nunca sair da sala de um pequeno teatro, este é um filme de uma vertigem admirável, contagiante e perturbante. 

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publicado 11:31 - 26 maio '13

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