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O "western" entre o velho e o novo

Clint Eastwood continua fiel a histórias e temas enraizados no imaginário clássico do "western", mesmo quando encena uma saga vivida na segunda metade do século XX: "Cry Macho" é mais um momento brilhante da sua filmografia.

O western entre o velho e o novo
Clint Eastwood e Eduardo Minett: revisitando lugares e temas do "western" clássico
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 O western entre o velho e o novo
Cry Macho - A Redenção O filme é protagonizado por Eastwood no papel de Mike Milo, uma antiga estrela de rodeo e criador de cavalos que, em 1979, aceita um trabalho de um antigo patrão para trazer o seu filho que vive no México para casa. Forçados a fazer o caminho para o Texas por estradas secundárias, este duo improvável enfrenta uma viagem inesperada e desafiadora, durante a qual, a cansada estrela de rodeo descobre ...

Basta um olhar, mesmo apressado, pela filmografia de Clint Eastwood (n. 1930) para reconhecermos que uma vertente essencial da sua trajectória passa pelo universo temático e mitológico do "western" — dos tempos heróicos de Itália, sob a direcção de Sergio Leone, desembocando em "O Bom, o Mau e o Vilão" (1966), até às sagas que ele próprio dirigiu, com inevitável destaque para o "oscarizado" "Imperdoável" (1992).

Reencontramo-lo, agora, em "Cry Macho" (a que, entre nós, foi acrescentado o subtítulo "A Redenção"), ainda e sempre revisitando o imaginário do "western", mesmo se a acção decorre na transição das décadas de 1970/80. De qualquer modo, este é um daqueles filmes que justifica a designação de "western" de fronteira, no sentido em que o seu drama envolve a passagem (e o regresso) dos EUA para o México.

Em termos esquemáticos, digamos que se trata de uma parábola sobre a ordem em forma de resgate moral. Ou seja: Clint interpreta um velho tratador de cavalos, ex-vedeta dos rodeos do Oeste, que viaja até ao México com o objectivo de trazer para o seu pai (Dwight Yoakam) um rapaz de 13 anos (Eduardo Minett), a viver uma existência de crescente degradação junto de uma mãe que o menospreza...

A Clint Eastwood interessa menos a logística "policial" (será que a missão se cumpre?... e com que incidentes?...) e mais os mecanismos de descoberta e revelação que a acção coloca em marcha. Em boa verdade, a relação que se vai estabelecer entre o velho e o novo está marcada por dois temas nucleares no universo do actor/cineasta, naturalmente herdados das matrizes clássicas do "western". Primeiro: que herança passa (ou não passa) de pais para filhos? Depois: o que é, e o que significa, construir um lugar para viver?

"Cry Macho" impõe-se, assim, como mais uma expressão exemplar de um cinema que resiste à frivolidade "juvenil" dos actuais modelos de aventura e, escusado será sublinhá-lo, em total alheamento de qualquer ostentação ou endeusamento da tecnologia. Em última instância, esta é uma arte de personagens e actores preservada pela nobreza artística de um jovial cineasta com 91 anos de idade.

Crítica de João Lopes
publicado 14:41 - 17 setembro '21

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