Oliveira visto pelos seus atores

Manoel de Oliveira  

Oliveira visto pelos seus atores

Alguns dos atores e atrizes mais importantes na obra de Oliveira reagem à sua morte e falam sobre como era trabalhar com o realizador.

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A morte de Manoel de Oliveira na imprensa internacional A morte do realizador é destacada nos meios de comunicação de todo o mundo.

O ator Luís Miguel Cintra, que participou em vários filmes do Manoel de Oliveira, falecido na quinta-feira, lembrou hoje que a primeira coisa que o realizador fazia quando iniciava a rodagem de um filme era "criar uma família".

"Nunca teve grandes conversas muito elaboradas, nem intelectuais sobre nada do que estava a fazer, isso faz parte do segredo do que se estava a fazer em comum. Esperava que houvesse uma corrente subterrânea de entendimento entre as pessoas, que se estabelecia através de coisas muito simples, como comer à mesma mesa, falar da saúde das pessoas, perguntar como estava o pai, como estava a mãe, (...), com todos os membros da equipa", recordou.

Conversas "não eram apenas com os atores, com as primeiras figuras ou com as segundas, era com o eletricista ou fosse com quem fosse. Isto criava uma espécie de família, sobretudo, pela presença da mulher de Manoel de Oliveira que o acompanhou sempre em todas as filmagens, da maneira mais comovente possível, interferindo e ele deixando que ela interferisse, numa atmosfera fora de todas as regras, porque ele vivia assim", contou ainda Luís Miguel Cintra.

A atriz francesa Catherine Deneuve recordou Manoel de Oliveira como um homem "muito especial". "Por vezes de uma dureza incrível, os seus filmes tinham uma personalidade muito particular", afirmou Catherine Deneuve.

A atriz francesa destacou a marca do cineasta português, ao recordar as filmagens de "O Convento" (1995), no qual contracenou com o ator John Malkovich. "Manoel de Oliveira era muito especial, por vezes sedutor e autoritário, muitas vezes encantador. Acima de tudo, ele tinha algo de artista, trabalhava sem parar nos seus filmes, impunha a sua visão na criação completa", descreveu.

Deneuve recordou também o entusiamo do realizador português: "Ele rejubilava quando tinha uma ideia. Era preciso obedecer-lhe e fazer o que ele queria. Vi-o interromper as filmagens porque faltava um acessório para uma cena. Durante várias horas esperámos que o objeto chegasse, para que a sua visão ficasse completa. Não há muitos cineastas que se possam dar ao luxo de trabalhar assim".

Maria do Céu Guerra diz que o realizador "Manoel de Oliveira foi um homem muito feliz, teve uma grande sorte, viveu mais tempo do que os seus contemporâneos e conseguiu fazer uma obra extraordinária, que todos nós podemos visitar e ver", disse a atriz, à entrada da cerimónia dos prémios da Academia Portuguesa de Cinema onde recebeu o Sophia para melhor atriz pelo seu papel em "Os Gatos Não Têm Vertigens".

A atriz Glória de Matos afirmou que o realizador Manoel de Oliveira "gostava de se surpreender, e que os atores o surpreendessem; era um criador na verdadeira aceção do termo".

A atriz, que trabalhou com o cineasta em filmes como "Benilde ou a Virgem Mãe" e "Francisca", disse à Lusa que havia, em Manoel de Oliveira, "qualquer coisa de criança, que nunca morreu nela, uma certa ingenuidade, e isso está nos filmes dele".

Glória de Matos referiu a importância que o realizador dava ao texto, e a forma rigorosa como preparava a cena "e, apesar de gostar de se surpreender, as coisas tinham de correr como ele imaginara".

A atriz recordou uma cena do filme "Vale Abraão", em que contracenava com Luís Miguel Cintra, e que, "apesar ser filmada às três da manhã, com janelas - e era uma cena difícil de fazer, pois era muito intimista -, tivemos de repetir até atingirmos aquilo que ele tinha imaginado".

Outra cena que a atriz recordou foi a da morte, no filme "Francisca" em que, "depois de dizer o lindíssimo texto da Agustina Bessa-Luís, tinha de levantar a cabeça - estava a chorar, como pedia o guião". "O Manoel ficou pasmado, surpreso, incapaz de parar de filmar, e durante dias andou sempre a perguntar-me como tinha conseguido chorar, e só me dizia: 'ó Glória, mas como foi? Mas como?'".

"Ele tinha-se surpreendido, tal como no filme 'O Quinto Império - ontem como hoje', numa cena entre mim e o Luís Miguel Cintra, o próprio Manoel lançou uma espada, que rodopiou, fez uma dança e caiu, uma coisa espantosa, com a qual ele próprio se surpreendeu. A cena, coisa rara, foi aplaudidíssima no Festival de Cinema de Veneza", contou a atriz, que participou também em "Canibais", "Espelho mágico" e "Singularidades de uma rapariga loira".

Também Leonor Silveira recordou, ontem, como o trabalho com o realizador Manoel de Oliveira lhe moldou a identidade e foi determinante no "rumo pessoal e profissional". A atriz, que se estreou no cinema aos 17 anos, em "Os canibais" (1988), afirmou num comunicado que foi com Manoel de Oliveira que aprendeu "a gostar de cinema, a reconhecer o belo e a pensar no poder do tempo".

"O meu amor pelo Manoel transcende a partilha artística. Esta é uma perda insuperável, mas a memória que me deixa será sempre feliz. Eu era uma atriz improvável. Hoje ele é o meu Mestre e eu a sua musa", afirmou.

Depois de "Os Canibais", Leonor Silveira participou noutros filmes de Oliveira como "Vale Abraão", "A divina comédia", "O Convento", "Party", "Espelho Mágico", "Singularidades de uma rapariga loura" e "O Gebo e a Sombra".

"O Manoel desafiou o tempo, desafiou o grande deus Kronos na sua vida e no seu trabalho. (...) O tempo também deu ao Manoel a sabedoria para não se deixar quebrar pelas tristes repetições da história, sem permitir que o mundo se esqueça que na liberdade criativa não há espaço para concessões", disse.

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