Reposições  

Os Talking Heads, aqui e agora

Mais uma bela reposição em tom musical: "Stop Making Sense" traz-nos as memórias dos Talking Heads em palco, filmados por Jonathan Demme (sete anos antes do cineasta assinar o clássico "O Silêncio dos Inocentes").

Os Talking Heads, aqui e agora
David Byrne no palco no Pantages Theater — foi há mais de trinta anos...
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E se a temporada de Verão terminasse, simbolicamente, com um grande acontecimento... musical? Isto depois, claro, do regresso de dois clássicos, musicais, precisamente, de Jacques Demy ("Os Chapéus de Chuva de Cherburgo" e "As Donzelas de Rochefort"). E se "Stop Making Sense" (1984), o extraordinário filme-concerto de Jonathan Demme (1944-2017), com os Talking Heads, nos viesse mostrar que, afinal, há um conceito de mercado para o Verão que, pedagogicamente, não esquece a riqueza do património cinematográfico?

Em boa verdade, a questão talvez seja mais simples. E mais desarmante. A célebre "temporada de Verão" não existe a não ser como um período em que as campanhas promocionais de "blockbusters" e afins ("bons" ou "maus", não é isso que está em causa...) adquirem uma dimensão (ainda) mais ruidosa e compulsiva. Acontece que, apesar de tudo, não se desvaneceu a noção de que tal período sinalizado pelo calendário pode ser um bom pretexto para reencontrar memórias fundamentais — e "Stop Making Sense" é um exemplo precioso de tais memórias.


Vale a pena lembrar que, num certo sentido, os Talking Heads de David Byrne — então a promover o seu quinto álbum de estúdio, "Speaking in Tongues" — eram mais famosos (não confundir com as utilizações correntes do adjectivo) que o próprio Demme. Este ainda não tinha dirigido "Selvagem e Perigosa" (1986) e "Viúva... Mas Não Muito" (1988), afirmando-se como um bom exemplo de uma certa produção directa ou indirectamente enraizada na herança dos clássicos de "série B" (lembremos o sofisticado "O Último Abraço", "thriller" com Roy Scheider lançado em 1979; e lembremos também que faltam sete anos para "O Silêncio dos Inocentes").

Estava-se em finais de 1983. Encontrando-se no Pantages Theater, em Hollywood (onde, nas décadas de 40/50, se tinham realizado várias cerimónias dos Oscars), a banda e o cineasta colaboraram no sentido de criar um evento serenamente encenado para celebrar o ritmo e a sensualidade da música dos Talking Heads. É um exemplo modelar do modo como o pop/rock também gosta dos espaços fechados — a sua discreta elegância, aliada a uma admirável vibração do espaço teatral, fazem com que, mais de trinta anos depois, o sintamos como um evento intensamente presente.

Crítica de João Lopes actualizado às 14:28 - 01 setembro '17
publicado 14:23 - 01 setembro '17

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