Estreia  

Os corpos de que se faz a história

Abdellatif Kechiche, o cineasta de "A Vida de Adèle", reaparece com o magnífico "Mektoub, Meu Amor" — um retrato da juventude de meados da década de 90, realizado com um realismo à flor da pele.

Os corpos de que se faz a história
Shaïn Boumedine — o destino vivido entre as imagens
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Amin (Shaïn Boumedine) é um jovem estudante parisiense que se dedica à fotografia e cinema, ambicionando transformar-se num cineasta. Durante as férias de Verão, ruma ao sul de França para estar com a família e reencontrar os amigos de infância — o restaurante dos pais, de origem tunisina, é o símbolo de uma existência em que ele reconhece as suas raízes, ao mesmo tempo sentindo que o destino o encaminhará noutras direcções...

Destino, justamente, é a palavra chave. Ou seja, a palavra mektoub, sinal dos cruzamentos ambíguos de desejos mais ou menos utópicos com uma realidade que os ignora. Podemos definir o novo filme de Abdellatif Kechiche, "Mektoub, Meu Amor", através dessa perturbação, de uma só vez mental e sensual, com que Amin enfrenta os enigmas do seu destino — e não é por acaso, obviamente, que muito dessa perturbação decorre do maravilhamento com que descobre as atribulações do amor e do sexo.
 

Vale a pena recordar que Kechiche (58 anos) é um cineasta francês de origem tunisina — saíu da Tunísia aos 6 anos, mudando-se com os pais para o sul de França, mais precisamente para Nice. Daí a considerarmos "Mektoub, Meu Amor" um objecto auto-biográfico vai um passo que, apesar de tudo, seria precipitado.

Haverá, por certo, ecos da experiência pessoal de Kechiche na personagem de Amin. Em qualquer caso, "Mektoub, Meu Amor" inspira-se num romance de François Bégaudeau ("La Blessure, la Vraie"), escritor que conhecemos como actor/argumentista de "A Turma" (2008), de Laurent Cantet (que também se inspirava num romance de Bégaudeau). Kechiche deslocou o seu contexto da década de 1980 para meados dos anos 90, procurando um tom de realismo no primeiro grau em que a vibração dos corpos é o primeiro elemento narrativo das histórias individuais e colectivas.

Escusado será dizer que nada disto é estranho a essa sensação à flor da pele que encontramos no filme mais conhecido de Kechiche: "A Vida de Adèle", Palma de Ouro de Cannes/2003 (atribuída por um júri presidido por Steven Spielberg). Estamos, afinal, perante a subtil arte narrativa de um cineasta que privilegia a singularidade do acontecimento contra o determinismo dos significados, desse modo abrindo-se à infinita pluralidade das significações.

Amin é, enfim, aquele que vive as escassas certezas e as muitas dúvidas da sua identidade — e "Metktoub, Meu Amor" tem como subtítulo 'Canto Primeiro', já que Kechiche prepara uma segunda parte (talvez para Cannes, em Maio...).

Crítica de João Lopes
publicado 23:09 - 03 fevereiro '19

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