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Os salteadores do tempo perdido

Maureen Fazendeiro e Miguel Gomes filmaram uma equipa de cinema a fazer um filme em plena pandemia: "Diários de Otsoga" celebra o cinema, a meio caminho entre ficção e documentário.

Os salteadores do tempo perdido
Carloto Cotta, Crista Alfaiate e João Nunes Monteiro: um jogo de espelhos, por amor do cinema
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 Os salteadores do tempo perdido
Diários de Otsoga Crista, Carloto e João constroem juntos um borboletário. Partilham o quotidiano na casa, dia após dia. Não são os únicos.

Face ao misto de realismo e lirismo de "Diários de Otsoga", apetece dizer que estamos perante um filme fabricado em função das limitações impostas pelo Covid-19 — nessa medida, um filme sobre a pandemia. Mas não parece que o projecto seja mais ou menos "sociológico". Em boa verdade, talvez seja mais justo dizer que este é um filme de pandemia.

Dito de outro modo: os realizadores Maureen Fazendeiro e Miguel Gomes apostaram em construir um objecto cinematográfico que fosse menos um retrato e mais uma deambulação especulativa — tão séria quanto irónica e, por isso, singularmente envolvente — sobre a (im)possibilidade de fazer um filme em contexto pandémico.

Ou ainda: "Diários de Otsoga" consegue integrar um desejo de ficção capaz de preservar uma elegante dimensão documental. Assistimos, assim, ao dia a dia de uma equipa de filmagem (que, escusado será dizer, "coincide" com a equipa do filme) que viaja no ziguezague do tempo, questionando e questionando-se sobre como fazer cinema em pandemia — jogo de espelhos, prazer de filmar, amor do cinema.

Daí o efeito desconcertante, misto de candura e perversidade, do factor tempo no interior de "Diários de Otsoga". Enfim, creio que importa não ser demasiado explícito (e deixar em aberto a possibilidade de o espectador descobrir o "segredo" narrativo do filme), sublinhando apenas o carácter irredutível da aventura vivida pelos actores Crista Alfaiate, Carloto Cotta e João Nunes Monteiro — como se fossem cruzados nostálgicos de uma suave utopia, salteadores do tempo perdido.

Crítica de João Lopes
publicado 23:37 - 19 agosto '21

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