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Amy Adams e Meryl Streep: entre "certeza" e "dúvida"

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Ao adaptar a sua própria peça "Dúvida", John Patrick Shanley relança uma importante tradição de relação criativa com os textos teatrais

É bem provável que o filme "Dúvida", de John Patrick Shanley, não seja dos mais distinguidos na próxima noite dos Oscars — recorde-se que tem quatro nomeações para actores, Meryl Streep (actriz), Philip Seymour Hoffman (actor secundário), Amy Adams e Viola Davis (ambas actrizes secundárias), e uma para o próprio Shanley, enquanto autor do argumento adaptado da sua própria peça teatral.

Seja como for, "Dúvida" deixa a marca de um valor que, convenhamos, não é muito acarinhado nos tempos que correm — quer pela indústria, quer por muitos sectores do público. A saber: um cinema apoiado na matéria específica das palavras, nos seus poderes de comunicação e também nas suas muitas ambivalências.

A história da dúvida que se instala num colégio católico do Bronx (Nova Iorque) em 1964 — desencadeada pelas suspeitas de uma freira em relação ao modo de comportamento de um padre com um dos seus alunos — está para além da mera dimensão de "escândalo". Aliás, como muito bem tem sublinhado o próprio Shanley em diversas entrevistas, o seu objecto de trabalho era essa contradição, a um tempo factual e ética: de um lado a "evidência" das coisas, do outro a "incerteza" que pode contaminá-la.

Nesta perspectiva, podemos dizer que "Dúvida" é também um filme que estabelece uma ponte com toda uma tradição de adaptações teatrais que, curiosamente, está este ano bem representada nos Oscars: "Frost/Nixon" é outra adaptação de uma peça, também feita pelo respectivo autor, Peter Morgan, enquanto "O Leitor" é filmado a partir de um argumento, inspirado no romance de Bernhard Schlink, escrito pelo dramaturgo David Hare.

 DÚVIDA - DOUBT

De John PatrickShanley com Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams; Drama; 104m; M/12; EUA; 2008

Ouça a crítica de João Lopes

 

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